Será que devo começar agora a tentar tecer ideias complexas, entrelaçando objetividade e subjetividade, para justificar a simplicidade da vida? É fácil pensar, sentir - no sentido de que é automático. Difícil é se expressar e compreender o que se sente.
Tenho passado muito tempo tentando ter 'pensamentos profundos' sobre a vida... Estranho que isto parece exigir uma sinceridade que machuca, pois revela a hipocrisia. Realmente, não é um passo fácil para alguém ser sincero consigo e com os outros. Muitos têm um medo, socialmente construído, de expor suas vergonhas, até mesmo de admiti-las para si.
Buscando ideias de alguns escritores, achei que somente livros de filosofia e sociologia me dariam novas perspectivas no espectro da vida. No entanto, é a literatura quem transmite de maneira sútil, mas tão mais inteligível, ideias acerca da vida.
Fico até pasmo quando pego um livro puramente honesto. Como é contrastante com a rotina. Por que até mesmo a realidade é uma mentira, ilusão, ao menos parcial. Será que ainda conseguimos, ao menos no campo das ideias, incluindo seu reflexo ativo, sermos sinceros?
Este é o primeiro passo, acredito, para começar a ter 'pensamentos profundos', e veja que, como disse, tenho passado muito tempo tentando tê-los. Isto é, tenho passado muito tempo não sendo honesto comigo mesmo. Centenas de firulas sobre a vida, a imensurabilidade de seu valor - se bem que, neste caso, não faz sentido falar de valor - a angústia de existir, a falta de relações amorosas, o sentimento de solidão mesmo com amizades significativas, com uma família admirável.
O problema todo esteve em expectativas (será? preciso arriscar para desenvolver a ideia). Só não sei se o excesso ou a falta de. Chegou ao ponto de eu não conseguir ver a beleza de um pôr do sol, da brisa nas árvores, no rosto. Sei que isto é um tanto romântico, mas não deve ser exatamente comum ter o apreço a estas coisas resumido à racionalidade. Isto é bonito por causa disto. E a admiração se fecha aí, sem qualquer brisa no coração, sem qualquer alteração da pulsação, sem aquela sensação de renovação psicológica. Toda a motivação para a criatividade se encerra sob modelos de sucesso, conceito também socialmente construído, frágil e mutável, e tão misleading. Talvez questione a fragilidade. Acho melhor dizer que talvez não o modelo em si seja frágil, mas a sua percepção pelos indivíduos, estes, sim, frágeis.
De qualquer forma, o que quero aqui? Só me falta o pequeno local enclausurado, e o anonimato do leitor serve da tela trançada que esconde o padre, para receber minhas confissões. O fato é que busquei construir explicações necessariamente complexas, tortuosas, numa tentativa talvez estúpida, derivada dessa formação razoavelmente racional, de explicar tudo sob hipóteses, como se fossem teoremas e seus corolários. Fui me destituindo de diversas concepções éticas e morais pois eram socialmente construídas. Expus-me ao ridículo e tomei atitudes arriscadas, e até agora estas coisas todas estão embatendo-se dentro de mim. Por fim, cheguei a desvalorização da existência, isto é, a falta de sentido em viver.
Fatalismo racional.
Bem, talvez esteja mais claro, era excesso. Reduzi a expectativa, simplifiquei as explicações, tornei o mundo mais tangível. Como que em um passe de mágica (sim, eu sei que o truque é efêmero, mas tomará possa repeti-lo com constância) a realidade se tornou relativamente tranquila. Senti vontade de trabalhar, faiscando a ideia de que até mesmo o trabalho racional é criativo, e o é.
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