domingo, 1 de setembro de 2013

Dois minutos de vida e morte

Etiquetas de valor social: vivo em uma época tal que meu comportamento é a receita do fracasso - definido neste efêmero contexto. Tento tocar o ponto mais interior destes questionamentos, determinar qual é a pedra angular. Mas como tocar o centro de algo oco?
Estamos, ao mesmo tempo, tão cheios e tão vazios, somos fluídos mutáveis e sólidos perenes. Pequenos Ulysses esquecidos no tempo, horas de mar bravio.
Minha imaginação empina minha cabeça, com letras em sua rabiola. O céu é tão grande, meu voo desvairado e incerto, balanceia como uma barca celeste -salve meus animais interiores, querido Noé!- se esquiva e, no entanto, sobrevoa sempre os mesmos pastos e os mesmos campos. Os mesmos rios de piche e troncos de concreto.
Ninguém se lembrará do náufrago que chorava pela terra partida, que morreu afogado, está em queda livre, mas tão somente do incompetente capitão, que a tudo deu um fim, se ao menos tiver feito fidedigno. Sou um belo mentiroso. Minto tão bem que engano a mim mesmo. Por exemplo, neste momento, finjo tão bem que vivo. Mas que vida há, de verdade? Como diz Clarice, quando não escrevo estou morta.
Se estou morto agora que escrevo, quanto mais quando não o faço, e olhe que não sou nenhum Machado, mas talvez até molhe meus pés em cubas. Se bem que esta coisa toda venha a me render umas casmurrices irracionais.
Algumas vezes fico pensando como é que se encarou a realidade alguns anos atrás. Sinceramente, boa parte da minha é enquadrada e virtual - o que fortalece a sensação de que toda a realidade é virtual, isto é, que não há tal de fato e que a vemos apenas sob sua sombra sensual, cruel e distante, em um biombo. Tenho o enquadramento da tela do computador. O enquadramento dos meus óculos. O enquadramento fosco dos olhos. O enquadramento da minha mente - sou assim tão quadrado? És praticamente um cubo, só te falta tampar a boca e os fundilhos!
Este último quadro é o mais forte. Ah, sim, como mostra sua força, minha querida! Mais do que um enquadramento, são grades que te acompanham todo o tempo, com a doce ironia de também ser a serra.

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