Ela acordara já há algumas horas. Ficara olhando para o teto enquanto pensava, não, procurava não pensar, mas não havia como. Olhou para o despertador, era por volta das cinco da manhã... algumas horas até alguém se mexer. Do outro lado se encontrava um corpo, de onde se via somente as costas, enrolado no cobertor, que se remexeu brevemente, fez um resmungo qualquer e continuou ali.
Ela respirou fundo, se levantou, foi até a pequena mesa que ficava no canto do quarto, acendeu a luminária e ali se encontravam papéis e livros, estes organizados, aqueles espalhados e desordenados, mas não traziam nada de importante. Começou a passar os olhos sobre as linhas, diferenciando uma palavra ou outra, lendo no modo automático, mas não era sono, ou tédio, era só indiferença, só falta de vida. Sentia saudade dos velhos tempos quando sempre havia algo com que se entreter, algo novo pra experimentar, pra arriscar, sempre fora assim.
Fechou o livro, e olhou a sua volta. O quarto arrumado e silencioso, estava gélido, tinha toda uma atmosfera de repetição, de comodismo. E então teve vontade de parar de respirar, era muito massante respirar aquele mesmo ar por tanto tempo. Ela se sentia sufocada, não conseguia mais respirar. Se ao menos não fosse tão necessário, se não fosse, ela já teria mudado, teria partido, teria gritado. Não que não tivesse boas recordações daquele lugar. Era só que era peso demais, um peso desnecessário, uma mesmice. Se ela pudesse abandonar, ainda teria boas memórias, mas eram memórias velhas, na época com o gosto bom, mas que se tornou enjoativo, envelheceu, acabou rançoso e ela não podia mais suportar aquilo. Sabia que isso eventualmente ocorreria, não sabia nem como havia se metido nesse estado permanente, não sabia como pudera acreditar que daria certo, se ressentia disso um pouco, mas no fundo sabia que não era assim. E agora o que ficava? Mas não tinha problema. Os pulmões do corpo deitado ao lado se mexiam levemente, mas isso só contribuía para infestar o ar com sua respiração, da qual ela já havia enjoado, enojado.
Até que tentou mudar de ideia, pensou mais um pouco, mas no fundo não queria, era inútil. A decisão já havia invadido sua mente, e ela sabia que era o que seria o melhor no momento. E ela se foi, pra sua recriação, para sua renascença. Já havia passado tanto tempo, e aquele ar ainda se arrastava por aí, mas ela não se prendia mais, a liberdade estava presente, pensou que estaria recuperada.
Nenhum comentário:
Postar um comentário