Lentamente oscilavam. A tela branca emoldurada por um mundo negro, com tons pastéis. Luzes mortas piscavam desesperadamente, são os rabos recém cortados da lagartixa. O natal passou há pouco tempo.
Faz tão pouco tempo. E parece que está tudo fora do convencional.
Lentamente oscilam. Mostrando sua presença, pulando do meio da escuridão. Em tons tristes, é verdade. Mostrando apenas os contornos indefinidos e as curvas elegantes que me fazem lembrar da vida. Por que será? Mas ela é o símbolo disso, creio eu. Tão longeva, e tão triste, nesta noite fria.
Ele sentiu vontade de sair pra caminhar. Antigamente gostava muito disto. Mas hoje tem medo da sua própria imaginação. É perda de tempo viver o que não existe. Ou talvez seja útil. Um projeto, uma imagem, de algo que nunca vai ser.
Observar o mundo como um cão acuado, maravilhando-se consigo mesmo enquanto olha o entorno. Mas acho que hoje não quer olhar pra nada. Está sentado em frente a janela, e observa, sem olhar, atentamente a noite. Na verdade, olha dentro de si mesmo.
Não sei exatamente o que se passa em sua cabeça dessa vez. Seu olhar é vazio, está bem longe daqui, não há como saber.
O cômodo possui uma poltrona escura num canto, já bem velha, provavelmente viera junto com o apartamento. A mesa abriga inúmeros papéis. Pilhas de livros se espalham em volta dela, no chão, sobre ela. É a mesa sobre os livros. Será que ele leu todos eles? Acredito que sim.
Mas hoje não quer ler. Ele só olha pela janela -sim, agora ele olha - e o olhar está fixo, ele não está perdido. Está muito distante, é verdade, mas parece tão confiante de si.
Levanta da cadeira, e caminha em direção a janela. As pernas, antes próximas do peito, enlaçadas pelos braços, agora estão para fora, penduradas: Ele olha abaixo a cidade.
Os pés estão imóveis, pesados, quase como mortos. Seus olhos agora se focam no movimento indiferente da cidade.
Não consigo ainda saber o que se passa em sua cabeça, mas já se pode ter uma vaga ideia.
Parece tão claro que ele quer se jogar. Ele quer tanto.
Mas tem medo. Tem medo de falhar, tem medo de não se deixar dominar, de no último instante repensar o desastre, e então será tarde demais.
Gostava de caminhar. Ainda não sabe se entregar ao medo e a incerteza. Eu o observo, esperando a resolução.
Agacha sobre o parapeito, as mãos esticadas sobre as laterais ainda o mantém deste lado da realidade.
A imagem é um tanto atormentadora para mim.
Realmente, eu sei que vai ser uma perda trágica, para um mundo cercado de tédio. De pessoas enfadonhas e suas vidas mesquinhas e pequenas.
Ele ali, sozinho em sua loucura, em seu sofrimento, foi maior, e ninguém sabe .Continua a olhar, e flertou com bastante sedução.
Uma das mãos já se soltou, agora se estica para frente, enquanto faz movimentos suaves, tentando sentir o vento, a vida da cidade que só existe acima dela.
Olha mais uma vez para baixo, e a cidade continua o seu monótono movimento. E então ele se vira pra dentro. Tudo parece não ter passado de um insano sonho. Mas sua vida medíocre está de volta. Todos os erros e arrependimentos, todas as tristezas e ressentimentos, resumidos num quarto sujo de um hotel.
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