Já eram sete da manhã. Ele dormiu pouco, é verdade, mas acabou acordando com o sol que entrava pela janela e o frio natural deste horário. Ainda usava a camisa preta, amassada, de ontem, estava usando apenas ela. Levantou-se, foi direto para o chuveiro. Esperava que a ideia tão forte e fascinante da morte na noite anterior fosse atiçar seu gosto pela vida. A morte parecia distante agora, mas a vida continuava a mesma monotonia.
Enquanto a água caía, passava a mão pelo rosto, no cabelo, pensando no que teria de fazer durante o dia. Ir para o trabalho, tomar café pra não desabar, andar no meio de pessoas que ele nunca conheceu nem jamais vai conhecer. Milhares de oportunidades, sucessos e fracassos, andando ao seu lado, sem nunca serem ao menos tentados. Ninguém saberia que, no dia anterior, ele fora tomado por uma real vontade de dar fim a vida. Ninguém iria notar a sua ausência nessa multidão.
Primeiro iriam ficar espantados com a morte repentina, afinal, tudo parecia tão em ordem. Depois repetiriam consigo mesmas o quão novo ele era, e o quanto tinha pela frente, como se as pessoas mais velhas já não tivessem mais poder de descobrir e fazer coisas pela frente. Uns poucos iriam para o velório do que restasse do corpo, diriam umas palavras falsas, hipócritas, gente que nunca o conheceu de verdade. Por fim os trâmites legais seriam resolvidos, e dali duas semanas ninguém mais saberia de sua existência, a não ser como causo nas festas de final de semana, algo dramático e distante, como um filme qualquer, algo irreal.
Acabara de tomar o banho, e já se uniformizava, vestia-se da maneira padrão, exigida na Empresa. Roupa social, simples, completa, que pagava para serem limpas e passadas com parte do salário de escritório. Já descera as escadas do apartamento, pegaria a moto e iria para o trabalho, mergulhar rotina a dentro novamente.
Como vivia sozinho, conseguiu juntar dinheiro ao longo do tempo para comprar uma moto ao estilo café racer, era negra e larga, os guidões para baixo, característico. Dera um nome, Bucéfalo. Nunca pensou que gostaria de ter uma moto para si, gostava do aspecto, mas nunca sentira vontade de pilotá-las, não se lembrava mais o que havia ocasionado a mudança. Pois bem, seguia com Bucéfalo para a Empresa, os carros e as cabeças das pessoas ao lado. As vezes imaginava, enquanto cruzava as velhas ruas, suas marcas, de tinta, de sangue, de vidro, de álcool, que galopava numa planície onde uma guerra acabara de terminar. Corpos por todos os lugares, sonhos perdidos, sangue regando as plantas, o dia e a noite totalmente indiferentes. Mas agora já voltara à realidade, nem se quer se preocupava com o evento de ontem a noite, não se dera conta da magnitude ainda. Talvez eu precisasse de ajuda. Talvez eu devesse procurar um amigo. Talvez eu devesse me focar mais no trabalho. Talvez eu não devesse esquentar tanto a cabeça. Talvez se eu tivesse menos tempo livre. Talvez se eu tivesse mais tempo livre. Não, isso não fazia sentido. Sua vida não era assim, e estes raciocínios serviriam apenas para esconder de si uma realidade evidente, uma vida medíocre e repetitiva, sem grandes expectativas, sem grandes derrotas, sem grandes superações. Apenas juntando dinheiro, acumulando coisas, conversando amenidades, suportando tudo isso.
Não que não tivesse vontade de viver mais, era só que as coisas haviam convergido pra mesmice. Era só que ele nunca arriscara demais, nunca fizera nenhuma grande bobagem. Sempre jogando pelo caminho certo, sempre seguindo a cartilha. Tudo bem, tinha o seu lado alternativo, mas era uma rebeldia comedida, algo até mensurável, esperado. Ouvia o seu rock, ouvia o seu punk. Tinha suas roupas pretas, gostava de gastar a energia acumulada fazendo exercícios em casa. Mas nunca fizera nada fora da caixa. Nos relacionamentos que tivera sempre procurara se moldar, procurava se adaptar para beneficiar a outra parte, ou talvez para se beneficiar, procurar outra situação de equilíbrio - leia-se comodismo. Isto num certo sentido causou um certo atraso na formação dos seus gostos pessoais, nas ideias, por outro lado lhe abriu a mente para outras experiências, outras opiniões, novas sensações. Já pensara em se casar, já pensara que Deus existia, já pensara que talvez fosse possível ter uma convivência em que as pessoas não enjoassem de si. Já não acreditava mais nessas coisas. Seria bom acreditar, ele dizia, mas não conseguia mais, e no fundo acreditava ser melhor assim.
Eu me pergunto, qual foi a faísca que ocasionou aquele episódio. Milhões de pessoas vivem nessas condições, sem pensar nem se quer em quem são. É complicado. Algumas vivem sem se quer poder pensar, mesmo que quisessem. Algumas se quer vivem. Mas nós ainda não presenciamos suicídios coletivos dessa magnitude, eu acho.
Não sei se o principal motivo foi algo externo, algo dito, feito por alguém. Ou se as coisas foram acontecendo aos poucos, e a mente foi trabalhando sobre isso, até finalmente colapsar, não conseguir mais manter o mínimo de coerência, fugindo para a segurança certa. Talvez esta tenha sido a primeira tentativa de muitas, felizmente nem chegou a se concretizar enquanto ato.
Enquanto eu divagava, ele chegou ao trabalho, tomou um grande copo de café, e se sentou no seu canto.
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