Mais um natal de bosta.
O tédio dominou os meus últimos quatro dias, e o pior de tudo é que sei que vai dominar amanhã também, e quem sabe até depois.
Balanço do ano? Bem, parece que o menino vivo está morrendo. As vezes penso se não seria melhor acabar com tudo logo de uma vez! Só faço peso morto...
Achei que poderia ser alguém de algum significado na vida de alguém, que fosse recíproco. Estive tão perto, talvez se eu tivesse me esforçado mais, talvez se eu não fosse tão idiota e imaturo, tão mimado!
Mas acho que é só isso, só mais um que passa, mais uma letra de rodapé que vai ficar, pra jamais ser lembrado. Um calo no sapato, uma preocupação em um sábado. Que fardo!
Por que você não me deixa em paz? Ainda te vejo todos os dias, um anjo bom, muito bom, mas acho que aperta demais minhas asas. Não viu que nenhuma corda me prendeu? Nenhum laço mágico me segurou? Carinho, mas de longe, por favor.
Parece que tem orgulho de quem se tornou, e eu só tenho vergonha. Me tornei um patético falastrão semi solitário que vai viver o próximo ano reclamado de tudo e chorando o que perdeu, se apegando as coisas do passado, tentando manter a imutabilidade, o conforto. Falastrão, incompetente!
O que vou fazer agora?
Encurralado pelos meus próprios vícios, aprisionado nesse mundinho pequeno e você crescendo, voando alto, amadurecendo. Meus vícios, meus podres vícios! Tenho vergonha de mim mesmo... isso não está certo, eu deveria estar mais vivo do que nunca! Mas estou morto. Morto aos 21. Sem nem saber direito o que é vida e responsabilidade.
Tenho recebido apoio, e estou abusando... Mas estas horas vazias, que não quero preencher com nada, vão me consumindo, e na madrugada eu não aguento, eu estilhaço, quero matar e morrer. Quero viver!
Gostaria que o cheiro ainda tivesse o mesmo efeito, que o peito ainda servisse de recanto, que talvez houvesse uma caixinha pra me guardar, em qualquer lugar, no canto da casa, no fundo do armário.
Mas as preocupações ultrapassam tudo, a rotina dominou tudo.
Minha infantilidade domina meus pensamentos, acua qualquer reação, parece que quero ser dominado, encontrar uma justificativa pro meu fracasso que faça sentido, que seja lógica, para que alguém tenha dó, e não diga, foi culpa da tua preguiça!
Mas eu sei que foi. Sempre é.
Queria poder voltar ao seu abraço, faria qualquer coisa pra estar no teu laço.
Mas quem eu quero iludir? O decidido está decidido, o mundo já está girando, as coisas já estão mudando, as pessoas já estão se procurando, e eu aqui, morto. Morto aos 21.
Daqui um tempo, eu sei, isso tudo vai ser idiotice. Tudo vai ter passado. Mas estas coisas tem me afetado tanto, hoje pensei algumas coisas e me senti torpe, caindo aos pedaços, caramba! Minha pressão baixou só de pensar em algo, que viagem!
Talvez eu quisesse me afundar nos livros de matemática, talvez eu quisesse provar pro mundo que sou um gênio em potencial, talvez eu quisesse ganhar dinheiro... mas parece tudo tao fútil. Me disseram pra não me preocupar demais, pois poderia atrapalhar minha carreira. CARREIRA! CARREIRA! CARREIRA! É isso que se leva daqui, não é? Será que é para o bem dos outros mesmo que precisamos de tanto dinheiro? Vai saber, gastamos com tanta porcaria agora. Tenho até um amigo que tem uma profissão idiota, acho que ele é palhaço. Mas me parece que ele já ajudou muito mais gente do que eu sonho em ajudar.
Afinal, o que estamos buscando? Por que sinto tanta falta de certas coisas?! Por que me sinto diminuído quando não tenho tal coisa? Como sou idiota, caramba!
Parece que o menino prodígio passa suas noites solitárias recurvado sobre um computador, enquanto sua mão queima, suas costas doem e sua barriga incha. Enquanto isso as histórias e as oportunidades passam pela janela, passam na frente dos teus olhos. Em retrospecto vejo o quanto fui mesquinho. Gostaria até de pedir desculpas, mas do que vai adiantar? Não consigo ver nada que vá me fazer mudar.
Talvez você conseguisse. Você conseguiu.
Mas eu retornei pro buraco. O problema é que um é peça rara e o outro é mais um pra ser guardado na caixinha do fundo do armário. Pra ficar encostado, inexplorado.
O que eu estou falando? Tem sido tudo melhor do que poderia ser, não tem? Foi tudo muito bom, sim! Mas, palmas para ele, consegui estragar tudo!
Sempre consigo, sempre! Não termina nada, seus projetos estão fadados ao fracasso meu jovem!
Como ainda ousas inventar que tem sonhos?
Você não tem sonhos, tal é tua pobreza de alma.
Não tem sonhos e tem que roubá-los. Suga qualquer sonho à sua volta.
E então inventa desculpas para justificar sua incoerência. Você tem medo de sonhar e falhar, tem medo de arriscar. Você é um aborto vivo. Você está morto. Morto aos 21. Talvez fosse melhor assim.
Daqui uns dias chega o ano novo... até posso prever, depressão e mediocridade com o repeteco de legião urbana. Dessa vez não vai ter ninguém pra abraçar, dessa vez não vai dar pra passar a noite fora. Dessa vez vai ser mais um dia enfadonho. Na melhor das hipóteses, folhas de sulfite, livros de matemática e programas de computador. na melhor das hipóteses pressão para terminar o que você começou, vergonha. Sério, como ainda não fui abandonado? Já estou morto e enterrado. Morto aos 21.
Respiro, com dificuldade. O ambiente está pesado. Quente e fedendo suor. O nariz escorrendo, torto na cadeira, os óculos foram deixados de lado e as letras estão todas duplicadas. Nem sei mais o que penso. É puro tédio, e é tudo frescura. Ingratidão, loucura. Você precisa morrer logo. Não vai dar pra ir muito longe assim. Você precisa morrer logo. Coragem pra morrer duas vezes (acho que eu quis dizer covardia).
É mais fácil choramingar e tentar gerar culpa, ainda que sem querer. Do que tentar batalhar. Até hoje eu não entendi, qual foi o estopim. Mas o que você esperava? Seu idiota, só meu deu custo, já bate o arrependimento de tudo, se soubesse que ia dar tanto trabalho!
É mais um natal de bosta, como sempre. Eu sozinho em frente ao computador. Não reclamo. Queria estar mais sozinho. Mais e mais. Preciso morrer mais uma vez. Preciso estar morto de vez. Pra tentar renascer, talvez. De onde vou tirar essa força? Era pra estar mais vivo do que nunca, mas estou morto. Morto aos 21.