Meditando. É assim que me encontro em quase todas as partes do meu dia. Talvez, melhor dizendo, uma letargia acompanhada de lampejos de pensamentos, de raciocínios, de conclusões irrefutáveis, aforismos. Viajo para lá e para cá, procuro me encarar olho a olho no espelho, e perguntar profundamente, quem é você? Em que acredita? Desafia-te! Descobre-te!
Confronto-me com meu rosto. Suas marcas de cansaço, os olhos secos, um esboço falso de sorriso para me convencer de que não sou miserável.
Confronto-me com meus erros. Todos ali, como roupa suja, e já tentei lavá-los, mas estão manchados, e por mais sorrisos que tenham sido pintados à tinta, ainda sou miserável.
Com o que seja geralmente chamado loucura... Ah! Mas mal te conhecem! Se ao menos dessemos ouvidos a Erasmo seríamos todos, provavelmente, mais felizes.
Confronto-me com a moral, xingo-a, digo que a desprezo, para logo em seguida abraçá-la fortemente, essa elegante desconhecida. Entre minhas horas de letargia, instantes de lucidez, e a constante briga moral, deparei-me com uma questão, suscitada talvez há muito tempo, mas que de certo modo fez tremer a sólida estrutura que rege minha vida. Trata-se do valor da beleza.
Talvez eu venha a fazer uma crítica à beleza, mas esta seria uma abordagem não fortuita. Na realidade, não quero desmerecer a beleza. Não. Eu quero é que ela seja sobreposta pelo que somos como pessoa, e que, em certo sentido, perca sim, um pouco de seu valor. Não me aninharei em discussões sobre a moral, ou em que consiste um bom caráter, nem quero me aproximar de idealismos, muito menos de uma espécie de Übermensch.
Para facilidade, e para que eu não torne a vida do leitor mais enfadonha, divagando sobre questões que tomariam, talvez, dezenas de páginas até que se chegasse à conclusão de que tudo depende de subjetividades do autor e do interlocutor, resumo-me a tomar como bom caráter o que, nos meus dias e na minha região, costuma-se aceitar como bom cidadão. Alguém digno de razoável confiança, que não seja violento - acho que são alguns requisitos fundamentais. Creio que não será de valia defini-lo mais profundamente, pois o que pretendo raciocinar aqui perpassa qualquer definição de bom ou mau, ou de um ser humano.
Pois bem, a crítica, mesclada a um apelo de mudança, consiste, inicialmente, em destituir da beleza o valor exacerbado. Assusta-me como cresce a indústria da beleza nos dias hoje. As nossas mulheres, e digo isso com a ternura que sinto por elas, estão cada vez mais se submetendo aos vai e vens do que se convencionou chamar moda. Parece-me que o o pré-requisito para se ser bem sucedida nos dias hoje é a beleza, ou, ao menos, uma tentativa esforçada de manter sua juventude, sua saúde. Se uma bela atriz possui celulite, isso chega a ser manchete de jornal. Mas a que absurdos nos submetemos? Digo nós pois os homens estão agora encerrando-se nesse caos também, além de partilharmos de parte da culpa em que as mulheres procurem cada vez mais se standardizarem, muito embora hajam outras questões de fundo comportamental envolvidas.
Estou extremamente decepcionado comigo mesmo, para variar. Percebi que essa questão, a beleza física, estava se tornando preponderante para mim. E eu vi o quão triste isso era, o quão vil, o quão pobre. Sinceramente, que tipo de ser humano queremos ser? O que escolhemos para nós? Será que é de livre espontânea vontade que escolhemos nos maquiar para sair de casa, nos escondendo da realidade, como se fosse algo ofensivo, como se fosse algo temível? Como se tivéssemos de ir a um teatro perante uma multidão? Ora bolas, a beleza está na naturalidade também. Quando enxergaremos a beleza de se ostentar, com orgulho, as rugas e os traços marcados no rosto?... Peço desculpas. Não quero enveredar sobre a natureza da beleza. É de todo direito da mulher se, por sua própria vontade, gostar de se maquiar, que se maquie, que seja bela, sem culpa. Pois na beleza não há nada de errado, de fato.
Porém o que quero demonstrar aqui é que na feiura também não!
E por incrível que pareça, é assim que pensamos hoje, que o feio deve ter algo de errado, algo de pernicioso, a ser evitado a todo custo. É exatamente assim. Nosso padrão de beleza nos foi incutido por séculos de escolhas minuciosas, ditadas por modelos clássicos. Mas não existe uma beleza absoluta, não existe uma feiura absoluta. Será que podemos, por um instante, ser um pouco superiores ao orgulho e valorizarmos o que somos? Afinal, que estamos levando em conta quando avançamos no relacionamento com alguém? Ouvi de amigas que já sacrificaram pessoas com as quais possuíam conversas maravilhosas, pessoas que as tratavam maravilhosamente bem, por que o seu orgulho foi incapaz de se diminuir para poder admirar, talvez amar, aquela pessoa. E tudo isso por ilusões! Sim, pois como acabei de dizer-lhes, o padrão de beleza hoje estabelecido é um mero fator cultural. Vagueie pelos séculos e verá que as mulheres obesas já foram as favoritas! Mude de ambiente cultural drasticamente, e verá que o padrão de beleza é totalmente diferente. Sendo assim, fica impossível julgar o que é, de fato, belo ou não. Deveríamos, e eu sei que aqui corro o risco de ser idealista e talvez poético demais, mas deveríamos nos valorizar por nossas atitudes enquanto pessoas e não por nosso estereótipo físico. Não é fácil, não é nada fácil. Digo por mim mesmo.
Será que estaria disposto a continuar com uma pessoa deficiente por que gosto de sua companhia? Talvez, se já houvesse uma ligação, há a alta probabilidade de que sim... Mas imagino quantos de nós nos disporíamos a abrir francamente nossos corações para conhecer alguém feio demais, ou mesmo que tenha alguma deficiência física grave. É com tristeza que digo que eu, sinceramente, ainda não estou pronto mental e emocionalmente para isso. Porém argumento que é por se estabelecer metas e por meditarmos no que julgamos correto e justo que se começa a mudança de personalidade, o esforço para superarmos nossas 'verdades' pré estabelecidas, questionando sempre o que sou em prol do que quero ser.
Meu único desejo com esse pobre texto é despertar sinceramente a razão perante essa questão. Não quero apelar para imagens que geram o emocionalismo momentâneo, que faz a pessoa mudar de ideia, mas que porém se apaga em poucos minutos. Peço-te humildemente que medite seriamente nisto que tenho dito aqui. Não limite a sua felicidade pelo orgulho ou por ideias tradicionalistas – pois a beleza é ortodoxa! - pois há a possibilidade de que a pessoa que mais poderia ter-lhe rendido risos e felicidade fosse àquela que você, vendo de relance um dia na rua, desprezou. Libertemo-nos dessa prisão que se chama alienação, essa lavagem cerebral que quer nos dizer o que devemos amar, como devemos parecer para ser amados, que nos diz que nós por nós mesmos não bastamos parar prover felicidade a outrem ou que, pior, outro não pode nos fazer feliz por não satisfazer nossos requisitos de beleza física. No fundo nós sabemos que isso é absurdo, é loucura, é simplesmente, insensato. Meditemos, portanto, nessa questão, imaginando quanto sofrimento seria poupado e quanta felicidade se adiciona à humanidade em geral se simplesmente pudéssemos superar uma ideia bizarra que se instalou ao longo dos séculos, tão cega e irracional como a seleção natural, que, porém, de natural não tem nada, pois foi totalmente artificializada por culturas elitistas.
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