E foi então que, por ironia, sua vida de fato retornou. Começou a se lembrar de como as coisas haviam decorrido até ali. Durante o sono não podia controlar, não podia exercer àquela ausência de força pensante, que o fazia delirar com o universo, e se ausentar do seu próprio ser, ou mesmo delirar com seu próprio ser, e se ausentar do universo. Não. Ali o que mandava era o sentimento, seja lá o que ele for, fruto de uma essência supernatural, algo inato à consciência, ou fruto de reações físico-químicas... talvez tudo junto. Neste momento pouco importava. Lembrou-se de sua infância com flashes compondo um gigante quebra cabeça de peças descorrelacionadas, mas que, de alguma forma, deveriam formar uma figura – ele – embora repetir tal feito fosse, provavelmente, impossível a um ser humano.
Um pequeno garoto que corria, o sorriso era sem motivo, os olhos brilhavam por si só, não careciam de ocasiões especiais. Porém tudo era frio e melancólico. Ele corria por uma estrada de um marrom acinzentado, enlameado. O macacão azul estava encardido do joelho para baixo. Uma mulher gorda, porém forte, de um aspecto facial duro e calejado, acenava com a mão para a pequena criança, que se aproximava espalhando a lama, dando vida àquele ambiente mórbido. Porém tão logo a vida se erguia com os pulos da criança e a as gotas marrons que descreviam parábolas, tão logo acabava com o assentar do lamaçal. Ao se aproximar da mulher, abraçou o avental que a circunscrevia, e da dureza fez-se curva, e do calo, calor, e a criança entrava na pequena cabana acolhida pelo amor daquela figura bucólica que, para qualquer ameaça, seria terrível.
E de repente estava sentado, já mais moço. Encolhido, os joelhos dobrados com seus braços revolvendo-os. Não se lembrou exatamente por que, mas sabia que a situação era confusa, e medonha. Homens passavam com seus aspectos frios, olhares altivos, querendo conquistar o pedaço de rua que se lhe aparecia a alguns metros adiante. Onde estaria? Não sei, não sei. O pequeno corpo remexia-se para frente e para trás, como se estivesse sobre uma cadeira de balanço, os olhinhos sacudiram: Onde estava? Estaria sozinho? Apesar da nuvem de pessoas que caminhava por sua frente, nenhuma delas parecia vê-lo, e, na realidade, nem ele os via, via apenas uma massa enorme que mais se assemelhava a uma nevasca mesclada à fuligem e rancor. Seus raciocínios eram tão confusos e bagunçados. Esperava que a senhora gorda aparecesse novamente. Esperava que as pessoas deixassem de ser bonecos de neve cobertos de carvão, para acolhê-lo e ajudá-lo na travessia da vida, que, talvez, fosse mais um beco sem saída.
Sentiu então seu corpo tornar-se leve, seus braços e mãos se abriram, o chão pálido coloriu-se de ondas vermelhas e verdes que abriam um buraco, estava agora como uma estrela, caindo no nada. Gritava, mas não havia resposta. O som negava-se a propagar em defesa de tão sórdida criatura. E caia em um buraco, de onde via-se apenas a abertura, pois não tinha extremidades. Era espaço. E olhou para seus braços, agora tinha pelos. Olhou para suas pernas enquanto caia, enquanto a sensação de vazio lhe dominava, a ânsia no estômago, a nítida noção de que a qualquer instante seu corpo se espatifaria e ele seria eles, pedaços de carne. De repente, seu corpo desacelerou, e ele ficou suspenso sob o nada. Avistou ao longe como que a luz de uma locomotiva que agora vinha em sua direção descontroladamente, não conseguia distinguir o que seria, via apenas uma luz, que causava um borrão nas ondas, que deformava seu espaço. Assustou-se. Ela vinha em sua direção. Cobriu o rosto com os braços, palmas para fora. E seus traços revelavam um grito gutural, embora tudo o que se ouvia era o silêncio. E o clarão tomou conta da sua vista.
Quando seus olhos se adaptaram à claridade, deu-se conta de que estava num quarto bastante iluminado. Já era um adolescente agora. A cama não lhe era estranha, dormia nela neste exato momento, embora não soubesse. Aproximou-se da janela, e observou, com alternâncias de indiferença e prazer, a paisagem. Era um dia ensolarado, vivo para a maioria, ouviam-se risos de um lado ou outro, e a grama brilhava por que provavelmente chovera há pouco tempo, formando um charmoso tapete esverdeado.
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