sábado, 10 de setembro de 2011

Alienação - Capítulo 3

Apesar do aspecto mais maduro, ele ainda estava perdido. Seu corpo mudara totalmente, porém sentia-se tão ou mais desencontrado e sozinho do que o pequeno garoto que balançava diante da multidão indiferente. Apesar de alegre vista, apesar do sol brilhante, apesar dos risos, ele estava desalentado, assustado, e uma inerente sensação de futilidade associada à desilusão produziam uma melancolia assustadora. Sentia-se indefeso e ameaçado a todo instante, querendo, ao mesmo tempo e sem ser paradoxal, viver e morrer.
Apoio suas mãos sobre o parapeito da janela a sua frente, e, como no estalido de uma granada, caiu sentado no chão. Percebeu que ela se deformava, formando à sua frente uma grotesca boca. Os traços quadrados da janela agora desfiguravam-se em contornos serrilhados que pareciam dizer alguma coisa, e agora estava viva. Por dentro de sua boca assustadora, uma realidade aparentemente tranquila e feliz, pássaros ao longe, um piquenique sem compromisso. Mas ela estava viva, ferozmente energizada. Avançava em sua direção, os dentes que possuía agora giravam numa frequência não tão rápida para que formasse um círculo, nem tão lenta que não parecesse ameaçadora; Um ciclone se formava ali no seu quarto, dando a sensação de que tudo estava sendo sugado para a janela. Deitou-se e agarrou-se ao pé da cama, com toda a força que possuía. Gritava desesperadamente, enquanto um vento enorme sugava-o em direção à terrível janela, que se aproximava lentamente. As veias dos seus braços estavam saltadas, a têmpora de sua testa parecia um verme que lhe roía o cérebro, o coração uma bomba relógio. Por fim não resistiu ao terrível vento que fazia tudo estremecer, porém não movia os móveis, como se tudo estivesse devidamente preso aos seus lugares, somente ele é que ela queria, era somente ele. E soltou. Viu em câmera lenta enquanto seus dedos se desvencilhavam do frio metal do cano. Quando as fotos de pessoas as quais não se recordava passaram acenando com sorrisos ao seu voo magistral, quando a paisagem do quadro na parede parecia dizer um último adeus.
E subitamente atravessou a boca mortífera, passou no meio dela sem ser tocado pelos dentes trituradores, e viu-se jogado no céu azul claro que compunha aquela atmosfera tranquila. Tudo parecia estar parado. Sentiu por um instante que poderia voar e viver aquele momento eternamente. Já não pensava mais em morte, já não pensava mais em si. Apenas contemplava o topo das árvores, enquanto as gramíneas se tornavam, aos poucos, discerníveis do tapete verde que há pouco compunham. Admirava o sorriso inocente das crianças correndo pelo parque, enquanto suas próprias mãos orquestravam uma sinfônica desesperada ao vento. Por esse breve, e no entanto interminável, instante de tempo, sentiu alegria, prazer. Os problemas estavam todos resolvidos. A ânsia se dissipara, o medo se fora. Era livre, voava. E as gramíneas agora se discerniam da terra úmida, e pareciam se esticar para tomá-lo o corpo. E então o tempo começou a correr, e ele se dera conta de que iria estatelar-se. E de um súbito o medo tomou conta de sua face, os olhos esbugalhados foram acompanhados pela pupila, que dilatava. E ele já iria penetrar o chão.
Acordou, de súbito, como se conforme seu corpo penetrasse no chão, ele retornasse saindo de sua cama. Estava sentado agora, as pernas dobradas, enquanto as mãos apoiavam-no no pequeno colchão, agarrando-o fortemente. A respiração forte, fazia a cama dar uma leve vibrada. Atordoado ainda, suor escorria-lhe pela testa. Estava apavorado. Teve vontade de chorar, mas se conteve. Não pelo susto ou pelo sonho em si. Mas por que nada daquilo havia, de fato, se concretizado.

Nenhum comentário:

Postar um comentário