Ele estava sentado em seu quarto, em silêncio. Com as mãos entrelaçadas por trás da nuca, o corpo reclinado para trás, buscava não pensar em nada. Apenas sentir o que seria, talvez, a existência. Uma existência solitária, incompleta, efêmera, de fato. Mas existência. Já perdera a noção das horas. Seu olho, imóvel e opaco, contemplava o teto, visualizando nos insetos e nas manchas de sujeira as estrelas escondidas, as nebulosas voadoras, e na sua mente, absolutamente nada. Não raciocinava sobre quem era, se havia machucado alguém. Não pensava na alegria da vida, não tinha o sonho de encontrar um grande amor. Ele apenas estava sendo o meio, o instrumento, pelo qual sentia a possibilidade da existência e contemplava com sua imaginação um ilusório passo de dança que o universo dava.
Por um instante, sua mente retornou. Não viu nenhuma imagem, não ouviu nenhum som. Mas um sentimento de culpa e dor percorreu sua espinha, subiu aos olhos, que reagiram. Baixou a cabeça por alguns segundos, desatou as mãos, e agora contemplava, com os olhos entreabertos, a soleira da parede. Uma das mãos, caída no apoio da cadeira, deslizou como uma cobra, e agora escorava com preguiça seu queixo, como que fingindo pensar em algo que mudaria o mundo. Mas sua mente ainda não estava ali. Ele estava ausente. Não queria pensar. Queria fugir, gostaria que realmente fosse louco, pois então não sentiria culpa, não se sentiria pequeno, não sentiria nada, apenas o impulso, a ida, o ataque, nunca a consequência. Mas não era louco. E o instante se concretizou numa sucessão dos mesmos, e a lágrima o acordou para a dita realidade.
Ele era humano, era fraco, passível dos seus impulsos mais fétidos e miseráveis, e por mais que quisesse, jamais seria civilizado. Não era da natureza dele, não é da natureza humana. Voltou a recostar-se na cadeira, e agora já não conseguia mais ver o suave entorno da noite. Agora só via uma parede. Estava consciente. Um embrulho no estômago o dominava, uma certa ânsia, um sublime nojo de tudo à sua volta.
Embora se esforçasse, ele não sabia quem era, não sabia pra que estava ali, sentado, alheio a tudo. Na realidade, era a expressão física de como ele se sentia: Indiferente para o universo. Porém gostava de uma coisa, poder contemplá-lo, ainda que esta contemplação se resumisse a imaginar com fotografias mentais,poucas vezes verdadeiras, planetas, galáxias e estrelas viajando suavemente, explodindo, expelindo sua energia, que um dia, eventualmente, nos eliminaria definitivamente.
Esboçou um sorriso, que se desfez como o açúcar no chá quente e, finalmente, ajeitou o corpo na cadeira, onde antes estivera derretido. Apoiou os cotovelos sobre a mesa e escondeu o rosto nas palmas de suas mãos. Durante alguns segundos se enfiou nesse mundinho entre a sombra de suas mãos e a sua face, invisível aos seus olhos. Não queria retornar, não queria. Mas precisava, era necessário. A cabeça escorregou por entre as mãos, e as mãos acariciaram os cabelos fartos e ondulados. Por fim, ergueu a cabeça. A olheira que apresentava não deixara dúvidas: Havia estado durante muito tempo naquela situação melancólica e ausente. Seu corpo roboticamente levantou-se e foi jogado contra uma cama, que era constituída de um fino colchão cinza e cuja armação era de canos de ferro. Havia um pouco de luz, não muita. O suficiente para perceber que agora os olhos apresentavam um leve brilho ondulante. Estava de bruços, a cabeça, virada, mirava a parede. E agora seus pensamentos viajavam para lugares tão distantes quanto a profundidade do seu ser.
Adormeceu.
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