segunda-feira, 5 de setembro de 2011

Indiferença


Sinto no meu íntimo uma certa sensação melancólica, reconfortante às vezes, talvez beirando o desespero em outras. Um desespero consciente de quem está no banco de um avião que cai... como se tudo passasse em câmera lenta... os rostos deformados pelo medo, os crentes orando por seu Deus, o último suspiro, o último impulso, o despertar da animalesca ignorância humana.
E eu ali, sentado, olhando, com certa indiferença, ao redor. Não sou capaz, no entanto, de definir meu rosto. Só tenho a sensação de que hora ou outra vai acabar, que todo o sofrimento foi em vão, todos os gritos de horrores foram energia desperdiçada pelo ar, e todas as orações... hora ou outra, tudo que está em câmera lenta passará tão rápido, tão dilacerante, tão quente, e de repente tudo vai se apagar.
E o metal retorcido continuará sendo metal retorcido, e a carne continuará sendo carne, e a morte continuará sendo nada, persistindo indefinidamente, indiferente a vida que ali estava anteriormente. E o fogo consumirá tudo e todos sem julgamento. Carbono e Alumínio para o mesmo fim, pouco lhe interessa se teve dois filhos, amou e sofreu neste evento que chamamos vida ou se foi retirado debaixo da terra, processado e montado para simplesmente carregar gente.
A indiferença do universo em relação a nós pode ser assustadora. Ou admirável. Como ser humano mediano, eu diria que sentimos sim a necessidade de achar um certo sentido em tudo o que acontece dentro de nós. Digo dentro por que o sofrimento continuaria acontecendo independente de nós, porém ganha significado quando entramos como observador, ou mesmo participante ativo. Sentimos a necessidade de explicar, de corrigir aquilo que está fora do nosso alcance, de nos sentir amados... de sustentar a vida sem que ela seja miserável. De não nos sentirmos desamparados diante de situações aparente ou efetivamente sem solução.
Como lidar com esse paralelo da grandeza do universo perante a beleza da vida, seja essa beleza a felicidade esbanjadora, seja a melancolia e tristeza inerente aos pensadores, seja o sofrimento que apela para algo supernatural. Nos deparamos com uma grandeza que se quer conseguimos conceber mentalmente. Talvez nos imaginemos viajando ao longo do universo, passando correndo por estrelas, para chegar nas fronteiras da expansão... para saber o que há além...
E ao mesmo tempo podemos ficar aqui mesmo, no nosso pequeno pedaço de terra voador, e viajarmos para dimensões pequeníssimas, descobrindo um universo tão vasto quanto o anterior.
E tudo tão desconhecido, e tudo tão inexplicável no momento. Nossa mente se distrai, fica encabulada, quer fugir, viver a vida sem pensar nisso. Podemos então nos aprofundar em outra viagem, esta talvez a mais longa, pois não existem limites físicos definidos, não existem fronteiras, a não ser que a própria pessoa as imponha. Podemos nos explorar, podemos ir fundo na nossa mente, tentar desvendar o que pensamos, o que sentimos, quem somos, o quanto podemos suportar. Eu me perco... acho o universo tão vasto e lindo, submetido às suas próprias regras gerais e, quem sabe, bem definidas, bem contornadas, embora muitas ainda longe da nossa compreensão... mas estudá-lo, conhecê-lo parece exigir uma certa abstração de mim mesmo, largar de ser quem sou – como se eu o soubesse - para ser universo, para mergulhar nele, através da ponte de ligação, a abstração matemática. Porém também fico inteiramente abismado com essa torrente de sensações, de pensamentos, de loucuras, incoerências, descontrole que eu sou. Algo que, embora delineado por algumas regras sociais e limitantes biológicos, esta livre para variar, viajando loucamente entre extremos, experimentando pensamentos variados, tentando consolidar uma certa personalidade, pois a apersonalidade causa sofrimento aos outros, embora seja um doce delírio para o navegante.
Foi durante uma dessas travessias pelo pensamento que fui me distanciando, afinal, do conceito do que é vida. Parece-me que quanto mais me aprofundo nos pensamentos, mais fico convencido de que não existe realidade no sentido usual que lhe é atribuído. Muitos diriam que estar vivo, que ser real, é sentir o toque, é sentir o amor, é, em suma, ter os sentimentos humanos, seja no tocante emocional, seja no sentido físico. Isto é estar vivo, isto é ser real.
Eu discordo, fortemente.
Quando paramos para pensar que todos nós somos compostos de átomos, organizados, de fato, porém átomos... e que a maior parte deles é simplesmente vazio... Então nós, na nossa magnífica capacidade de pensar, de raciocinar, nos absurdos processos físico-químicos que nosso corpo coordena, somos, em grande parte, nada. Se dizemos que tocamos, mentimos, pois nunca, de fato, chegamos a tocar, já que a repulsão eletromagnética torna-se muito intensa. Se paramos para imaginar, por um instante, que não existe nada supernatural, que o universo é o que ele diz ser: físico, e só. Nós somos parte insignificante do seu todo. Um evento extraordinário, mais raro do que uma supernova, porém tão indiferente quanto este quando não se tem um observador... e mesmo que houvesse, ele estaria condicionado ao mesmo universo que nós e, portanto, fadado ao desaparecimento, o que implica, no fim das contas, na indiferença do universo ao fantástico mar de pensamentos, ideias e sentimentos que estão entre nossas orelhas.

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