quinta-feira, 15 de setembro de 2011

[Wo]Man With An Open Heart

Meditando. É assim que me encontro em quase todas as partes do meu dia. Talvez, melhor dizendo, uma letargia acompanhada de lampejos de pensamentos, de raciocínios, de conclusões irrefutáveis, aforismos. Viajo para lá e para cá, procuro me encarar olho a olho no espelho, e perguntar profundamente, quem é você? Em que acredita? Desafia-te! Descobre-te!
Confronto-me com meu rosto. Suas marcas de cansaço, os olhos secos, um esboço falso de sorriso para me convencer de que não sou miserável.
Confronto-me com meus erros. Todos ali, como roupa suja, e já tentei lavá-los, mas estão manchados, e por mais sorrisos que tenham sido pintados à tinta, ainda sou miserável.
Com o que seja geralmente chamado loucura... Ah! Mas mal te conhecem! Se ao menos dessemos ouvidos a Erasmo seríamos todos, provavelmente, mais felizes.
Confronto-me com a moral, xingo-a, digo que a desprezo, para logo em seguida abraçá-la fortemente, essa elegante desconhecida. Entre minhas horas de letargia, instantes de lucidez, e a constante briga moral, deparei-me com uma questão, suscitada talvez há muito tempo, mas que de certo modo fez tremer a sólida estrutura que rege minha vida. Trata-se do valor da beleza.
Talvez eu venha a fazer uma crítica à beleza, mas esta seria uma abordagem não fortuita. Na realidade, não quero desmerecer a beleza. Não. Eu quero é que ela seja sobreposta pelo que somos como pessoa, e que, em certo sentido, perca sim, um pouco de seu valor. Não me aninharei em discussões sobre a moral, ou em que consiste um bom caráter, nem quero me aproximar de idealismos, muito menos de uma espécie de Übermensch.
Para facilidade, e para que eu não torne a vida do leitor mais enfadonha, divagando sobre questões que tomariam, talvez, dezenas de páginas até que se chegasse à conclusão de que tudo depende de subjetividades do autor e do interlocutor, resumo-me a tomar como bom caráter o que, nos meus dias e na minha região, costuma-se aceitar como bom cidadão. Alguém digno de razoável confiança, que não seja violento - acho que são alguns requisitos fundamentais. Creio que não será de valia defini-lo mais profundamente, pois o que pretendo raciocinar aqui perpassa qualquer definição de bom ou mau, ou de um ser humano.
Pois bem, a crítica, mesclada a um apelo de mudança, consiste, inicialmente, em destituir da beleza o valor exacerbado. Assusta-me como cresce a indústria da beleza nos dias hoje. As nossas mulheres, e digo isso com a ternura que sinto por elas, estão cada vez mais se submetendo aos vai e vens do que se convencionou chamar moda. Parece-me que o o pré-requisito para se ser bem sucedida nos dias hoje é a beleza, ou, ao menos, uma tentativa esforçada de manter sua juventude, sua saúde. Se uma bela atriz possui celulite, isso chega a ser manchete de jornal. Mas a que absurdos nos submetemos? Digo nós pois os homens estão agora encerrando-se nesse caos também, além de partilharmos de parte da culpa em que as mulheres procurem cada vez mais se standardizarem, muito embora hajam outras questões de fundo comportamental envolvidas.
Estou extremamente decepcionado comigo mesmo, para variar. Percebi que essa questão, a beleza física, estava se tornando preponderante para mim. E eu vi o quão triste isso era, o quão vil, o quão pobre. Sinceramente, que tipo de ser humano queremos ser? O que escolhemos para nós? Será que é de livre espontânea vontade que escolhemos nos maquiar para sair de casa, nos escondendo da realidade, como se fosse algo ofensivo, como se fosse algo temível? Como se tivéssemos de ir a um teatro perante uma multidão? Ora bolas, a beleza está na naturalidade também. Quando enxergaremos a beleza de se ostentar, com orgulho, as rugas e os traços marcados no rosto?... Peço desculpas. Não quero enveredar sobre a natureza da beleza. É de todo direito da mulher se, por sua própria vontade, gostar de se maquiar, que se maquie, que seja bela, sem culpa. Pois na beleza não há nada de errado, de fato.
Porém o que quero demonstrar aqui é que na feiura também não!
E por incrível que pareça, é assim que pensamos hoje, que o feio deve ter algo de errado, algo de pernicioso, a ser evitado a todo custo. É exatamente assim. Nosso padrão de beleza nos foi incutido por séculos de escolhas minuciosas, ditadas por modelos clássicos. Mas não existe uma beleza absoluta, não existe uma feiura absoluta. Será que podemos, por um instante, ser um pouco superiores ao orgulho e valorizarmos o que somos? Afinal, que estamos levando em conta quando avançamos no relacionamento com alguém? Ouvi de amigas que já sacrificaram pessoas com as quais possuíam conversas maravilhosas, pessoas que as tratavam maravilhosamente bem, por que o seu orgulho foi incapaz de se diminuir para poder admirar, talvez amar, aquela pessoa. E tudo isso por ilusões! Sim, pois como acabei de dizer-lhes, o padrão de beleza hoje estabelecido é um mero fator cultural. Vagueie pelos séculos e verá que as mulheres obesas já foram as favoritas! Mude de ambiente cultural drasticamente, e verá que o padrão de beleza é totalmente diferente. Sendo assim, fica impossível julgar o que é, de fato, belo ou não. Deveríamos, e eu sei que aqui corro o risco de ser idealista e talvez poético demais, mas deveríamos nos valorizar por nossas atitudes enquanto pessoas e não por nosso estereótipo físico. Não é fácil, não é nada fácil. Digo por mim mesmo.
Será que estaria disposto a continuar com uma pessoa deficiente por que gosto de sua companhia? Talvez, se já houvesse uma ligação, há a alta probabilidade de que sim... Mas imagino quantos de nós nos disporíamos a abrir francamente nossos corações para conhecer alguém feio demais, ou mesmo que tenha alguma deficiência física grave. É com tristeza que digo que eu, sinceramente, ainda não estou pronto mental e emocionalmente para isso. Porém argumento que é por se estabelecer metas e por meditarmos no que julgamos correto e justo que se começa a mudança de personalidade, o esforço para superarmos nossas 'verdades' pré estabelecidas, questionando sempre o que sou em prol do que quero ser.
Meu único desejo com esse pobre texto é despertar sinceramente a razão perante essa questão. Não quero apelar para imagens que geram o emocionalismo momentâneo, que faz a pessoa mudar de ideia, mas que porém se apaga em poucos minutos. Peço-te humildemente que medite seriamente nisto que tenho dito aqui. Não limite a sua felicidade pelo orgulho ou por ideias tradicionalistas – pois a beleza é ortodoxa! - pois há a possibilidade de que a pessoa que mais poderia ter-lhe rendido risos e felicidade fosse àquela que você, vendo de relance um dia na rua, desprezou. Libertemo-nos dessa prisão que se chama alienação, essa lavagem cerebral que quer nos dizer o que devemos amar, como devemos parecer para ser amados, que nos diz que nós por nós mesmos não bastamos parar prover felicidade a outrem ou que, pior, outro não pode nos fazer feliz por não satisfazer nossos requisitos de beleza física. No fundo nós sabemos que isso é absurdo, é loucura, é simplesmente, insensato. Meditemos, portanto, nessa questão, imaginando quanto sofrimento seria poupado e quanta felicidade se adiciona à humanidade em geral se simplesmente pudéssemos superar uma ideia bizarra que se instalou ao longo dos séculos, tão cega e irracional como a seleção natural, que, porém, de natural não tem nada, pois foi totalmente artificializada por culturas elitistas.

sábado, 10 de setembro de 2011

Casa Torta


Camarada

Quando foi que perdemos
Desejo de viver?
Não.
Quando foi que que ganhamos o desejo de viver?

No começo, simplesmente impulso
A correnteza
Espuma que se forma, indicando violência na queda
São as nossas lágrimas
Problemas
Desavenças

John me disse que não havia mais esperança
Será que ele estava certo?

Isso é com você, camarada.
Camarada.

Eu quero
Vida
Vida simplesmente
Vida puramente
Vida bela, mente.
O porquê?
Isso é com você camarada.

Afundei-me
Virei avestruz
Só via escuridão
Enquanto o mundo iluminado girava

Alumiando o sangue
As vísceras
Tripas de gente bela
Suspiros
Tudo em vão.
Descarrilhou

O trem da vida
Não tem mais estação
Descarrilhou, camarada.

Tem gente morta por toda parte.
Gente chorando em todo vagão.
Saque sobre todo fraco
E o vidro
Opaco
Esconde a realidade.

Camarada, eu saí
Saí do vagão
Ajoelhado
Olhando minhas mãos

Não!
Morte
Não!
Não a temo.
Nem fujo dela.
Espero-a como àquele convidado ilustre, cuja promessa da visita foi feita quando nasci.

Enquanto isso desfruto da minha ama
Ahh! vida, vida.
Vida que me acompanha
Ferida
Dolorida

Mas que vou reclamar?
Chorei, escrevi, desenhei
Amei
Não passei fome
E me tornei casmurro sem ares de fidalgo
Como compôs meu amigo Machado

E depois de tirar a cabeça do buraco
Sair do vagão
Olhei pro sol, estendi minha mão
E disse
Venha
Venha por que eu não vou me esconder
Quero você
Tudo

A vida
Vida enfática
Vida apática
Vida estanque, de beleza homeopática.

É camarada
Vida.

Alienação - Capítulo 3

Apesar do aspecto mais maduro, ele ainda estava perdido. Seu corpo mudara totalmente, porém sentia-se tão ou mais desencontrado e sozinho do que o pequeno garoto que balançava diante da multidão indiferente. Apesar de alegre vista, apesar do sol brilhante, apesar dos risos, ele estava desalentado, assustado, e uma inerente sensação de futilidade associada à desilusão produziam uma melancolia assustadora. Sentia-se indefeso e ameaçado a todo instante, querendo, ao mesmo tempo e sem ser paradoxal, viver e morrer.
Apoio suas mãos sobre o parapeito da janela a sua frente, e, como no estalido de uma granada, caiu sentado no chão. Percebeu que ela se deformava, formando à sua frente uma grotesca boca. Os traços quadrados da janela agora desfiguravam-se em contornos serrilhados que pareciam dizer alguma coisa, e agora estava viva. Por dentro de sua boca assustadora, uma realidade aparentemente tranquila e feliz, pássaros ao longe, um piquenique sem compromisso. Mas ela estava viva, ferozmente energizada. Avançava em sua direção, os dentes que possuía agora giravam numa frequência não tão rápida para que formasse um círculo, nem tão lenta que não parecesse ameaçadora; Um ciclone se formava ali no seu quarto, dando a sensação de que tudo estava sendo sugado para a janela. Deitou-se e agarrou-se ao pé da cama, com toda a força que possuía. Gritava desesperadamente, enquanto um vento enorme sugava-o em direção à terrível janela, que se aproximava lentamente. As veias dos seus braços estavam saltadas, a têmpora de sua testa parecia um verme que lhe roía o cérebro, o coração uma bomba relógio. Por fim não resistiu ao terrível vento que fazia tudo estremecer, porém não movia os móveis, como se tudo estivesse devidamente preso aos seus lugares, somente ele é que ela queria, era somente ele. E soltou. Viu em câmera lenta enquanto seus dedos se desvencilhavam do frio metal do cano. Quando as fotos de pessoas as quais não se recordava passaram acenando com sorrisos ao seu voo magistral, quando a paisagem do quadro na parede parecia dizer um último adeus.
E subitamente atravessou a boca mortífera, passou no meio dela sem ser tocado pelos dentes trituradores, e viu-se jogado no céu azul claro que compunha aquela atmosfera tranquila. Tudo parecia estar parado. Sentiu por um instante que poderia voar e viver aquele momento eternamente. Já não pensava mais em morte, já não pensava mais em si. Apenas contemplava o topo das árvores, enquanto as gramíneas se tornavam, aos poucos, discerníveis do tapete verde que há pouco compunham. Admirava o sorriso inocente das crianças correndo pelo parque, enquanto suas próprias mãos orquestravam uma sinfônica desesperada ao vento. Por esse breve, e no entanto interminável, instante de tempo, sentiu alegria, prazer. Os problemas estavam todos resolvidos. A ânsia se dissipara, o medo se fora. Era livre, voava. E as gramíneas agora se discerniam da terra úmida, e pareciam se esticar para tomá-lo o corpo. E então o tempo começou a correr, e ele se dera conta de que iria estatelar-se. E de um súbito o medo tomou conta de sua face, os olhos esbugalhados foram acompanhados pela pupila, que dilatava. E ele já iria penetrar o chão.
Acordou, de súbito, como se conforme seu corpo penetrasse no chão, ele retornasse saindo de sua cama. Estava sentado agora, as pernas dobradas, enquanto as mãos apoiavam-no no pequeno colchão, agarrando-o fortemente. A respiração forte, fazia a cama dar uma leve vibrada. Atordoado ainda, suor escorria-lhe pela testa. Estava apavorado. Teve vontade de chorar, mas se conteve. Não pelo susto ou pelo sonho em si. Mas por que nada daquilo havia, de fato, se concretizado.

Alienação - Capítulo 2

E foi então que, por ironia, sua vida de fato retornou. Começou a se lembrar de como as coisas haviam decorrido até ali. Durante o sono não podia controlar, não podia exercer àquela ausência de força pensante, que o fazia delirar com o universo, e se ausentar do seu próprio ser, ou mesmo delirar com seu próprio ser, e se ausentar do universo. Não. Ali o que mandava era o sentimento, seja lá o que ele for, fruto de uma essência supernatural, algo inato à consciência, ou fruto de reações físico-químicas... talvez tudo junto. Neste momento pouco importava. Lembrou-se de sua infância com flashes compondo um gigante quebra cabeça de peças descorrelacionadas, mas que, de alguma forma, deveriam formar uma figura – ele – embora repetir tal feito fosse, provavelmente, impossível a um ser humano.
Um pequeno garoto que corria, o sorriso era sem motivo, os olhos brilhavam por si só, não careciam de ocasiões especiais. Porém tudo era frio e melancólico. Ele corria por uma estrada de um marrom acinzentado, enlameado. O macacão azul estava encardido do joelho para baixo. Uma mulher gorda, porém forte, de um aspecto facial duro e calejado, acenava com a mão para a pequena criança, que se aproximava espalhando a lama, dando vida àquele ambiente mórbido. Porém tão logo a vida se erguia com os pulos da criança e a as gotas marrons que descreviam parábolas, tão logo acabava com o assentar do lamaçal. Ao se aproximar da mulher, abraçou o avental que a circunscrevia, e da dureza fez-se curva, e do calo, calor, e a criança entrava na pequena cabana acolhida pelo amor daquela figura bucólica que, para qualquer ameaça, seria terrível.
E de repente estava sentado, já mais moço. Encolhido, os joelhos dobrados com seus braços revolvendo-os. Não se lembrou exatamente por que, mas sabia que a situação era confusa, e medonha. Homens passavam com seus aspectos frios, olhares altivos, querendo conquistar o pedaço de rua que se lhe aparecia a alguns metros adiante. Onde estaria? Não sei, não sei. O pequeno corpo remexia-se para frente e para trás, como se estivesse sobre uma cadeira de balanço, os olhinhos sacudiram: Onde estava? Estaria sozinho? Apesar da nuvem de pessoas que caminhava por sua frente, nenhuma delas parecia vê-lo, e, na realidade, nem ele os via, via apenas uma massa enorme que mais se assemelhava a uma nevasca mesclada à fuligem e rancor. Seus raciocínios eram tão confusos e bagunçados. Esperava que a senhora gorda aparecesse novamente. Esperava que as pessoas deixassem de ser bonecos de neve cobertos de carvão, para acolhê-lo e ajudá-lo na travessia da vida, que, talvez, fosse mais um beco sem saída.
Sentiu então seu corpo tornar-se leve, seus braços e mãos se abriram, o chão pálido coloriu-se de ondas vermelhas e verdes que abriam um buraco, estava agora como uma estrela, caindo no nada. Gritava, mas não havia resposta. O som negava-se a propagar em defesa de tão sórdida criatura. E caia em um buraco, de onde via-se apenas a abertura, pois não tinha extremidades. Era espaço. E olhou para seus braços, agora tinha pelos. Olhou para suas pernas enquanto caia, enquanto a sensação de vazio lhe dominava, a ânsia no estômago, a nítida noção de que a qualquer instante seu corpo se espatifaria e ele seria eles, pedaços de carne. De repente, seu corpo desacelerou, e ele ficou suspenso sob o nada. Avistou ao longe como que a luz de uma locomotiva que agora vinha em sua direção descontroladamente, não conseguia distinguir o que seria, via apenas uma luz, que causava um borrão nas ondas, que deformava seu espaço. Assustou-se. Ela vinha em sua direção. Cobriu o rosto com os braços, palmas para fora. E seus traços revelavam um grito gutural, embora tudo o que se ouvia era o silêncio. E o clarão tomou conta da sua vista.
Quando seus olhos se adaptaram à claridade, deu-se conta de que estava num quarto bastante iluminado. Já era um adolescente agora. A cama não lhe era estranha, dormia nela neste exato momento, embora não soubesse. Aproximou-se da janela, e observou, com alternâncias de indiferença e prazer, a paisagem. Era um dia ensolarado, vivo para a maioria, ouviam-se risos de um lado ou outro, e a grama brilhava por que provavelmente chovera há pouco tempo, formando um charmoso tapete esverdeado.

sexta-feira, 9 de setembro de 2011

Cuspe sobre crítica e opinião I

Ultimamente notei que estava cometendo alguns, se não muitos, erros em termos de entender como o outro se sente quanto à exposição de uma opinião. Na realidade, concluí que, de fato, estava agindo de maneira extremamente crítica.
O interessante é que eu estou, digamos, disposto a ouvir algumas críticas, reagindo as vezes com certa inquietação, outras sentindo-me ofendido, ainda algumas esbravejando-me, sem nunca, porém, logo em seguida,desculpar-me e retornar – ou ao menos tentar – o diálogo ou a discussão com o arguidor.
Há porém um problema com isso que é o simples fato de que nem todas as pessoas reagem da mesma maneira às críticas, e eu não as culpo. Na verdade, o que pretendo fazer aqui é um mero esboço de minha opinião acerca da crítica e da opinião, formulada durante breve meditação e que, portanto, merece aprofundamento e prática.
Tomarei como base o efeito que minha crítica causa à outra pessoa, ou seja, se ela se sente ofendida ou não. Este parâmetro é, obviamente, bastante subjetivo. Por isso trabalharei com os casos extremos, ou seja, a 'melhor das posturas' diante o 'pior dos casos'.
Assim, como início de exposição, eu abordarei a crítica direta. Quando ataco diretamente, por ofensa chula, digo prontamente que isto já constitui um erro acerca da civilidade e é ocasionado, geralmente, em momentos de alta ira e pouco bom senso, ou até mesmo numa discussão acalorada em que o bom senso está presente dentro dos argumentos, mas ausente do comportamento. Vou englobar também a ironia indireta, ou mensagens subliminares, visíveis o suficiente para que o receptor possa perceber a crítica e reagir a ela.
Neste caso, podemos ter uma reação do tipo indiferença, em que a pessoa recebe a crítica, a 'aceita', porém simplesmente não reage, nem a favor, nem contra. Creio que esta é a postura de quem está indisposto a continuar a discussão, por sentir-se ofendido, ou estar sendo vencido pelo cansaço e não pela lógica. Outra reação seria aceitar a crítica, no sentido em que ela não afeta emocionalmente, mas sim mentalmente, e uma reflexão é despertada, o que poderá se desdobrar em mudança de pensamento e comportamento, reação essa aceitável, pois não gerou ofensa. Além disso, há a reação bravia, a mais natural eu diria, em que a pessoa busca retrucar com a mesma intensidade, como se por meio de simples bate-estaca de ironias se chegasse a algum consenso sobre o assunto. Esta última reação (e note que é um comportamento não unidirecional, mas sim, bi ou multidirecional, dependendo do número de discursantes) é a mais terrível, pois resulta de uma ofensa profunda e intensa.
Pois bem, fica claro que a última reação é o pior dos casos dentro de minha exemplificação. Como, durante uma crítica, eu estou na ofensiva, eu é quem sou o responsável por estas reações, e não o receptor. Obviamente, ele reagirá da maneira que lhe aprouver. Porém, a partir do momento que lancei a crítica, abri a porta para que as reações supramencionadas se manifestassem. Obviamente, por questões de sofrimento e consideração, não quero que as alternativas ofensivas venham à tona, como esteve ocorrendo ultimamente. A solução é, portanto, simplesmente me abster de lançar a crítica, a não ser que esteja explicitamente solicitado pela outra pessoa que se de opinião abertamente sobre determinado assunto. Julgo que, com base em conversa com amigos, a crítica gratuita e a ironia desmedida é prejudicial a humanidade da própria pessoa, visto que soa como ofensa e desrespeito, podendo, inclusive, gerar cisão das partes, fato esse inaceitável perante os meus conceitos de bem viver e convivência pacífica e harmoniosa. Além do que, quando a discussão se torna colérica, o primeiro instinto da pessoa é travar todas as suas opiniões, por orgulho, para não perder, no sentido que usualmente se atribui a uma discussão. Estes assuntos se inter relacionam com outro que tratarei em outro tópico, que é a liberdade de opinião.
Pois bem, apenas para reforçar, a minha opinião, agora, é a de que uma crítica aberta, ou dita gratuita, tem maior probabilidade de causar desavença do que fazer nascer a reflexão que, eu imagino, seja o objetivo principal de uma conversa ou discussão em cima de um tópico, ainda que as partes não cheguem num consenso ao final. Pode parecer trivial, mas durante momentos de calor, somos mais movidos pelo simples orgulho de humilhar o outro, do que construir de fato uma luz de percepção, uma meditação, um olhar diferente, que poderiam, não duvide, mudar todo o nosso modo de vida. Como disse, está é meramente uma meditação superficial, talvez tome um pouco mais de tempo para exercer o controle sob o impulso, mas nada que a inteligência e a meditação profunda não sejam capazes de conter.
Abordo agora o outro modo de discussão de pontos de vistas conflitantes, que trata simplesmente da exposição de argumentos quando questionado sobre. Dizendo melhor, ao invés de apontar o erro do outro e despejar um monte de informações como numa crítica, espero a opinião de outrem, e apresento as minhas de forma respeitosa, buscando, por exemplo, achar pontos em comum, elogiar pontos positivos, sempre disposto a repensar minha opinião, esta, julgo eu, a principal característica de pessoas que amadurecerão psicológico e emocionalmente.
Adoto assim uma postura passiva, em oposição a ofensiva crítica. A partir deste momento, não sou eu quem estou abrindo a porta para qualquer reação que o ouvinte possa ter, não, pois a minha opinião será expressa com o mínimo de parcialidade – livre de opiniões passionais - e apenas quando solicitada, buscando dar ao máximo a sensação de intelecto, e não de ignorância, como ocorre durante argumentação crítica do tipo pingue-pongue, à pessoa que conversa comigo. Assim, eu imagino, mitigamos a possibilidade de uma reação violenta, por assim dizer, ou drástica, como quando por exemplo a 'solução' é simplesmente afastar-se da pessoa, não que isso se torne inexistente e, algumas vezes, necessário.
Porém, em paralelo com essa exposição passiva de argumentos, gostaria de deixar meu ponto de vista bem exposto e firmado, no sentido de que se minha opinião ofende o outro, eu não sou o culpado por isso, mas ele o é, tendo em vista que, num primeiro momento, a minha opinião não envolveria atacá-lo intelecto ou emocionalmente, e se ele se sente ofendido, é por ser incapaz de lidar com a diferença de pensamento. (Parto aqui da premissa de que a minha opinião não envolve a violência física ou a difamação, ou qualquer tipo de perseguição, opiniões estas sob as quais tenho severas reservas.)
Assim, concluo que devo reformar minha postura durante as discussões de assuntos apaixonantes. Procurarei passar de uma postura crítica e rude, algumas vezes prepotente, fruto provavelmente de algum ressentimento acumulado e atiçada por aqueles que gostam de imprimir sua opinião aos outros, à uma postura passiva, que leve em conta em primeiro lugar a opinião do outro, que medite naquilo que foi falado antes de responder. Sair de uma condição de discussão onde o único objetivo é provar que se está certo para uma condição onde o objetivo é sair mais sólido, mais sábio, no sentido de estar disposto a considerar a opinião do outro, remodelar sua cabeça, assim como mantê-la quando julgar pertinente. Em suma, abandonar uma formação de guerra, para uma formação de paz, que exige sacrifícios, compreensão e, principalmente, diálogo aberto e sem preconceitos.
Reitero desculpas àqueles a quem ofendi por meio da crítica desarrazoada, e agradeço os conselhos que são sempre bem-vindos durante esses tempos tempestuosos. Mas gostaria de pedir também a mesma compostura, de conversar com a cabeça aberta, disposta à mudanças, reflexões profundas e reformulação de comportamento, além de um fator que não mencionei anteriormente, mas que permeia muitas das mudanças de comportamento, que é a paciência.

segunda-feira, 5 de setembro de 2011

Alienação - Capítulo 1


Ele estava sentado em seu quarto, em silêncio. Com as mãos entrelaçadas por trás da nuca, o corpo reclinado para trás, buscava não pensar em nada. Apenas sentir o que seria, talvez, a existência. Uma existência solitária, incompleta, efêmera, de fato. Mas existência. Já perdera a noção das horas. Seu olho, imóvel e opaco, contemplava o teto, visualizando nos insetos e nas manchas de sujeira as estrelas escondidas, as nebulosas voadoras, e na sua mente, absolutamente nada. Não raciocinava sobre quem era, se havia machucado alguém. Não pensava na alegria da vida, não tinha o sonho de encontrar um grande amor. Ele apenas estava sendo o meio, o instrumento, pelo qual sentia a possibilidade da existência e contemplava com sua imaginação um ilusório passo de dança que o universo dava.
Por um instante, sua mente retornou. Não viu nenhuma imagem, não ouviu nenhum som. Mas um sentimento de culpa e dor percorreu sua espinha, subiu aos olhos, que reagiram. Baixou a cabeça por alguns segundos, desatou as mãos, e agora contemplava, com os olhos entreabertos, a soleira da parede. Uma das mãos, caída no apoio da cadeira, deslizou como uma cobra, e agora escorava com preguiça seu queixo, como que fingindo pensar em algo que mudaria o mundo. Mas sua mente ainda não estava ali. Ele estava ausente. Não queria pensar. Queria fugir, gostaria que realmente fosse louco, pois então não sentiria culpa, não se sentiria pequeno, não sentiria nada, apenas o impulso, a ida, o ataque, nunca a consequência. Mas não era louco. E o instante se concretizou numa sucessão dos mesmos, e a lágrima o acordou para a dita realidade.
Ele era humano, era fraco, passível dos seus impulsos mais fétidos e miseráveis, e por mais que quisesse, jamais seria civilizado. Não era da natureza dele, não é da natureza humana. Voltou a recostar-se na cadeira, e agora já não conseguia mais ver o suave entorno da noite. Agora só via uma parede. Estava consciente. Um embrulho no estômago o dominava, uma certa ânsia, um sublime nojo de tudo à sua volta.
Embora se esforçasse, ele não sabia quem era, não sabia pra que estava ali, sentado, alheio a tudo. Na realidade, era a expressão física de como ele se sentia: Indiferente para o universo. Porém gostava de uma coisa, poder contemplá-lo, ainda que esta contemplação se resumisse a imaginar com fotografias mentais,poucas vezes verdadeiras, planetas, galáxias e estrelas viajando suavemente, explodindo, expelindo sua energia, que um dia, eventualmente, nos eliminaria definitivamente.
Esboçou um sorriso, que se desfez como o açúcar no chá quente e, finalmente, ajeitou o corpo na cadeira, onde antes estivera derretido. Apoiou os cotovelos sobre a mesa e escondeu o rosto nas palmas de suas mãos. Durante alguns segundos se enfiou nesse mundinho entre a sombra de suas mãos e a sua face, invisível aos seus olhos. Não queria retornar, não queria. Mas precisava, era necessário. A cabeça escorregou por entre as mãos, e as mãos acariciaram os cabelos fartos e ondulados. Por fim, ergueu a cabeça. A olheira que apresentava não deixara dúvidas: Havia estado durante muito tempo naquela situação melancólica e ausente. Seu corpo roboticamente levantou-se e foi jogado contra uma cama, que era constituída de um fino colchão cinza e cuja armação era de canos de ferro. Havia um pouco de luz, não muita. O suficiente para perceber que agora os olhos apresentavam um leve brilho ondulante. Estava de bruços, a cabeça, virada, mirava a parede. E agora seus pensamentos viajavam para lugares tão distantes quanto a profundidade do seu ser. 
Adormeceu.

Indiferença


Sinto no meu íntimo uma certa sensação melancólica, reconfortante às vezes, talvez beirando o desespero em outras. Um desespero consciente de quem está no banco de um avião que cai... como se tudo passasse em câmera lenta... os rostos deformados pelo medo, os crentes orando por seu Deus, o último suspiro, o último impulso, o despertar da animalesca ignorância humana.
E eu ali, sentado, olhando, com certa indiferença, ao redor. Não sou capaz, no entanto, de definir meu rosto. Só tenho a sensação de que hora ou outra vai acabar, que todo o sofrimento foi em vão, todos os gritos de horrores foram energia desperdiçada pelo ar, e todas as orações... hora ou outra, tudo que está em câmera lenta passará tão rápido, tão dilacerante, tão quente, e de repente tudo vai se apagar.
E o metal retorcido continuará sendo metal retorcido, e a carne continuará sendo carne, e a morte continuará sendo nada, persistindo indefinidamente, indiferente a vida que ali estava anteriormente. E o fogo consumirá tudo e todos sem julgamento. Carbono e Alumínio para o mesmo fim, pouco lhe interessa se teve dois filhos, amou e sofreu neste evento que chamamos vida ou se foi retirado debaixo da terra, processado e montado para simplesmente carregar gente.
A indiferença do universo em relação a nós pode ser assustadora. Ou admirável. Como ser humano mediano, eu diria que sentimos sim a necessidade de achar um certo sentido em tudo o que acontece dentro de nós. Digo dentro por que o sofrimento continuaria acontecendo independente de nós, porém ganha significado quando entramos como observador, ou mesmo participante ativo. Sentimos a necessidade de explicar, de corrigir aquilo que está fora do nosso alcance, de nos sentir amados... de sustentar a vida sem que ela seja miserável. De não nos sentirmos desamparados diante de situações aparente ou efetivamente sem solução.
Como lidar com esse paralelo da grandeza do universo perante a beleza da vida, seja essa beleza a felicidade esbanjadora, seja a melancolia e tristeza inerente aos pensadores, seja o sofrimento que apela para algo supernatural. Nos deparamos com uma grandeza que se quer conseguimos conceber mentalmente. Talvez nos imaginemos viajando ao longo do universo, passando correndo por estrelas, para chegar nas fronteiras da expansão... para saber o que há além...
E ao mesmo tempo podemos ficar aqui mesmo, no nosso pequeno pedaço de terra voador, e viajarmos para dimensões pequeníssimas, descobrindo um universo tão vasto quanto o anterior.
E tudo tão desconhecido, e tudo tão inexplicável no momento. Nossa mente se distrai, fica encabulada, quer fugir, viver a vida sem pensar nisso. Podemos então nos aprofundar em outra viagem, esta talvez a mais longa, pois não existem limites físicos definidos, não existem fronteiras, a não ser que a própria pessoa as imponha. Podemos nos explorar, podemos ir fundo na nossa mente, tentar desvendar o que pensamos, o que sentimos, quem somos, o quanto podemos suportar. Eu me perco... acho o universo tão vasto e lindo, submetido às suas próprias regras gerais e, quem sabe, bem definidas, bem contornadas, embora muitas ainda longe da nossa compreensão... mas estudá-lo, conhecê-lo parece exigir uma certa abstração de mim mesmo, largar de ser quem sou – como se eu o soubesse - para ser universo, para mergulhar nele, através da ponte de ligação, a abstração matemática. Porém também fico inteiramente abismado com essa torrente de sensações, de pensamentos, de loucuras, incoerências, descontrole que eu sou. Algo que, embora delineado por algumas regras sociais e limitantes biológicos, esta livre para variar, viajando loucamente entre extremos, experimentando pensamentos variados, tentando consolidar uma certa personalidade, pois a apersonalidade causa sofrimento aos outros, embora seja um doce delírio para o navegante.
Foi durante uma dessas travessias pelo pensamento que fui me distanciando, afinal, do conceito do que é vida. Parece-me que quanto mais me aprofundo nos pensamentos, mais fico convencido de que não existe realidade no sentido usual que lhe é atribuído. Muitos diriam que estar vivo, que ser real, é sentir o toque, é sentir o amor, é, em suma, ter os sentimentos humanos, seja no tocante emocional, seja no sentido físico. Isto é estar vivo, isto é ser real.
Eu discordo, fortemente.
Quando paramos para pensar que todos nós somos compostos de átomos, organizados, de fato, porém átomos... e que a maior parte deles é simplesmente vazio... Então nós, na nossa magnífica capacidade de pensar, de raciocinar, nos absurdos processos físico-químicos que nosso corpo coordena, somos, em grande parte, nada. Se dizemos que tocamos, mentimos, pois nunca, de fato, chegamos a tocar, já que a repulsão eletromagnética torna-se muito intensa. Se paramos para imaginar, por um instante, que não existe nada supernatural, que o universo é o que ele diz ser: físico, e só. Nós somos parte insignificante do seu todo. Um evento extraordinário, mais raro do que uma supernova, porém tão indiferente quanto este quando não se tem um observador... e mesmo que houvesse, ele estaria condicionado ao mesmo universo que nós e, portanto, fadado ao desaparecimento, o que implica, no fim das contas, na indiferença do universo ao fantástico mar de pensamentos, ideias e sentimentos que estão entre nossas orelhas.