sexta-feira, 4 de janeiro de 2013

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Não era um mal lugar pra se trabalhar. O ambiente era claro, as pessoas não eram tão ruins, algumas. Tinha um cubículo no meio de um grande salão com colunas no meio, cercado por uma parede de vidros, e envolto por uma outra infinidade de cubículos. Conhecia as pessoas ao seu redor de vista, conversas dispensáveis. Como está? Tudo bem, tudo bem. Parece que o jogo de hoje vai ser bom. Pois é, parece que vai chover amanhã, né? É, pois é. Mas isso era apenas pequena parte do tempo que despendia dentro do escritório.
 A grande parte consistia em atender telefonemas padrões, ser polido com todos os clientes, responder e-mails, conferir contratos, aguentar o mal humor do chefe e a pressão do trabalho. Havia estudado engenharia em uma das melhores faculdades de onde vivia. Não havia se destacado em nada lá dentro, na verdade, havia sido medíocre, deixava as coisas para a última hora, sem vontade de aprender mais coisa, não conseguia acreditar que completaria as tarefas. Mesmo assim conseguira um trabalho, que se distanciara     das matérias de projeto mecânico, da base em cálculo, física, química, dos trabalhos em grupos.
 O trabalho em grupo na empresa consistia em fazer reuniões semanais para estabelecer metas semi impossíveis de serem cumpridas, confiar em pessoas não confiáveis, dar um ou outro palpite, anotar tudo, e trabalhar como um cavalo, mostrar serviço. Apesar do mal humor do chefe, por algum motivo ainda não aparente, ele ia com sua cara, então contava com sua simpatia quando fazia alguma merda. Felizmente, algo raro.
 As pessoas hoje apareceriam preocupadas com seus assuntos pessoais. Uma conta não paga. A traição daquela estrela do cinema. O acidente de carro a duas quadras dali. O assassinato de um jovem pela polícia, disseram que era traficante, disseram que ele reagiu. Por outro lado ninguém saberia que ele fora seriamente para por fim a vida na noite anterior. Que não haveria mais contas, que não haveria mais acidentes. Que não haveria mais assassinato para onde ele estava indo. Lugar nenhum.
 Hoje apareceriam com metas, estatísticas, com ligações, reclamações, com e-mails, com serviços mal feitos. Nenhum de nós se da conta da mediocridade de nossas preocupações. Não tenho computador. Não tenho dinheiro. Não consigo sexo. Não nos damos conta. Não tenho pais. Não tenho família. Não tenho comida. Não tenho as pernas. Não tenho os braços. Talvez por isso eu tenha dito que havia sido grande, o maior, e não sabia, embora tenha se enfiado na merda novamente. Ao menos tinha a dignidade de terminar com a vida ao invés de reclamar sobre aquele smartphone de última geração que não pode comprar ainda.
 E tudo isso se desenrolava entre um copo de café e outro. Hoje tomava mais do que o normal, havia dormido pouco e mal. Só queria sair de lá, mas não sabia pra onde ir depois. Ainda era jovem, talvez pudesse sair pra algum lugar, já havia visitado alguns lugares da cidade. Sozinho, todo lugar é a mesma coisa, só depende do que você quer ver, ou do que você quer beber. Sexo? Talvez. Sempre fora estranho nesse aspecto. Acho que ainda não decidira do que gostava. Na verdade, não gostava desta imposição. Quando se tocou disso percebeu o quanto o mundo era realmente preconceituoso e excludente, o como as tradições e as concepções de séculos atrás permeavam e continuariam a permear por longos anos a realidade a sua volta. Hey! Ele voltou a si.
 Precisamos desse relatório pra semana que vem, o fornecedor ainda não respondeu aos e-mails? Nenhuma novidade ainda, acho que vou precisar ligar lá,e se nada funcionar, vou precisar pedir que os visitem. Ah, esses incompetentes, pagamos em adiantamento, e sempre atrasam!
Ela realmente pensou que estaria recuperada. Só mais aquele dia, e então o ar fresco da insegurança, ter de lidar com aquilo, não queria que ele sofresse, mas não havia como. Só contava com sua boa vontade pra ajudar no processo. Fizera o café, preparara torradas. Ele já estava de pé.
 Olhou, agradeceu. As vezes era meio folgado, mas não era mal no todo. Ela só não conseguia mais sentir aquela ligação, agora era indiferença. As vezes gostava da conversa, mas na maior parte do tempo só achava perda de tempo. Mas agora tudo isso não teria importância, ela já havia tomado sua decisão. Já estava arrumada, ia pro trabalho, aproveitaria o tempo no trânsito pra saber como lidar com tudo isso. Sabia que pensaria tudo com calma, mas acabaria remoendo tanto que faria da maneira que não imaginara. O trânsito estava lento. Podia observar as pessoas apressadas, pra lá e pra cá. Vidros fechados, medo de assalto. Várias motos pra lá e pra cá, não entendia do assunto, mas uma larga, parecia um quadrado, com cores negras porém muito reflexiva chamara sua atenção por alguns segundos. Só algo com que se distrair pra tentar respirar um pouco e desenvolver a linha de raciocínio sobre o assunto que realmente lhe interessava hoje. Acho que depois disso nem seria tão difícil. Conhecia muita gente, e poderia voltar a sair com a galera, relações mais variadas, conversas variadas, mais confortável. Conhecer gente nova, com certeza.
 Chegara a Empresa, o salão amplo, terceiro andar, milhares de cubículos. Havia estudado administração de empresas, mas trabalhava praticamente como supervisora, as vezes vendedora, as vezes compradora, as vezes gerente. Aprendera tudo sobre economia, era nova, mas muito astuta, no fundo amava trabalhar, estudava muito, sempre que podia. Organizara suas coisas, enquanto trabalhava não pensara tanto sobre o assunto, não tinha tempo pra isso, estava preocupada com um relatório que deveria estar terminado até o fim da semana, para ser entregue na outra, referente a uma compra que havia realizado. Dependia do feedback de setor de análise de contratos, passou lá rapidamente para dar uma apressada no andamento da coisa, sem pressão, tinha jeito pra lidar com as situações. O dia até que passara rápido. Na hora do almoço, sentara na praça em frente a empresa. O tempo estava nublado, fazia um pouco de frio, e agora ela pensava um pouco mais sobre o que faria depois. Precisava dar um jeito na sua vida. Cansou-se, talvez não quisesse se estressar tanto com as coisas. Por ali havia um café, na verdade, uma mistura de livraria com café. Nunca havia entrado, mas tinha uma fachada famosa. Quem sabe um outro dia? A hora do almoço já estava terminando. Enquanto caminhava de volta, observou estacionada a tal moto que havia lhe chamado a atenção.

Ao fim da tarde ele não sabia exatamente o que faria ainda. Não queria voltar pra casa, acho que só queria beber um pouco, ouvir uma música rápida, gastar energia. Já fazia meses que não fazia sexo. Isso o incomodava, e relutava em admitir o quão fútil era por depender tanto de algo tão simples de ser resolvido. Na verdade, enfrentava dilemas internos ainda, coisas que tentava resolver já há tempos, mas sempre na indecisão, o que lhe deixava em uma situação de crise, de insegurança, o que talvez fosse bom, tendo em vista a natureza comodista de quase todas as suas atitudes ultimamente. Último café no trabalho. O tempo nublado da hora do almoço havia passado e a noite estava limpa, as estrelas pareciam diamantes encravados num tecido de veludo, e ao sair do trabalho deu uma volta com Bucéfalo. Ainda estava de roupa social, mas não dava a mínima pra isso. Só seguia lentamente, pra lá e pra cá, olhando as ruas, pensando que talvez pudesse entrar em algum lugar pra se distrair. Pensando bem, talvez não fosse uma boa ideia encher a cara.

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