terça-feira, 15 de janeiro de 2013

Este mês ganhei a série de livros do Stieg Larsson, que estão mais ou menos na moda graças ao filme americano (os filmes suecos são de 2009). Terminei de ler o primeiro livro e é simplesmente fantástico! Muitas referências externas, o cara consegue apresentar amplamente a cultura literária sueca, músicas, entre outras. Uma ou outra passagem as vezes força um pouquinho a barra. Dois ou três parágrafos de um livro de 600 páginas. Uma pena, em um certo sentido, eu ter visto os filmes antes, pois o encadeamento de descobertas e revelações é instigante! Sou suspeito para falar pois é o primeiro romance policial que eu leio. Senti que a Lisbeth foi retratada de maneira muito mais forte e decidida no filme, enquanto no livro é possível enxergar uma jovem confusa.
 Ainda estou embriagado por esse escritor e por esse livro. Nunca pensei que um livro fosse me afetar tão profundamente. Talvez eu consiga entrar em mais detalhes em textos subsequentes.

sexta-feira, 4 de janeiro de 2013

A vida é uma vadia. E eu to sem grana.

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Não era um mal lugar pra se trabalhar. O ambiente era claro, as pessoas não eram tão ruins, algumas. Tinha um cubículo no meio de um grande salão com colunas no meio, cercado por uma parede de vidros, e envolto por uma outra infinidade de cubículos. Conhecia as pessoas ao seu redor de vista, conversas dispensáveis. Como está? Tudo bem, tudo bem. Parece que o jogo de hoje vai ser bom. Pois é, parece que vai chover amanhã, né? É, pois é. Mas isso era apenas pequena parte do tempo que despendia dentro do escritório.
 A grande parte consistia em atender telefonemas padrões, ser polido com todos os clientes, responder e-mails, conferir contratos, aguentar o mal humor do chefe e a pressão do trabalho. Havia estudado engenharia em uma das melhores faculdades de onde vivia. Não havia se destacado em nada lá dentro, na verdade, havia sido medíocre, deixava as coisas para a última hora, sem vontade de aprender mais coisa, não conseguia acreditar que completaria as tarefas. Mesmo assim conseguira um trabalho, que se distanciara     das matérias de projeto mecânico, da base em cálculo, física, química, dos trabalhos em grupos.
 O trabalho em grupo na empresa consistia em fazer reuniões semanais para estabelecer metas semi impossíveis de serem cumpridas, confiar em pessoas não confiáveis, dar um ou outro palpite, anotar tudo, e trabalhar como um cavalo, mostrar serviço. Apesar do mal humor do chefe, por algum motivo ainda não aparente, ele ia com sua cara, então contava com sua simpatia quando fazia alguma merda. Felizmente, algo raro.
 As pessoas hoje apareceriam preocupadas com seus assuntos pessoais. Uma conta não paga. A traição daquela estrela do cinema. O acidente de carro a duas quadras dali. O assassinato de um jovem pela polícia, disseram que era traficante, disseram que ele reagiu. Por outro lado ninguém saberia que ele fora seriamente para por fim a vida na noite anterior. Que não haveria mais contas, que não haveria mais acidentes. Que não haveria mais assassinato para onde ele estava indo. Lugar nenhum.
 Hoje apareceriam com metas, estatísticas, com ligações, reclamações, com e-mails, com serviços mal feitos. Nenhum de nós se da conta da mediocridade de nossas preocupações. Não tenho computador. Não tenho dinheiro. Não consigo sexo. Não nos damos conta. Não tenho pais. Não tenho família. Não tenho comida. Não tenho as pernas. Não tenho os braços. Talvez por isso eu tenha dito que havia sido grande, o maior, e não sabia, embora tenha se enfiado na merda novamente. Ao menos tinha a dignidade de terminar com a vida ao invés de reclamar sobre aquele smartphone de última geração que não pode comprar ainda.
 E tudo isso se desenrolava entre um copo de café e outro. Hoje tomava mais do que o normal, havia dormido pouco e mal. Só queria sair de lá, mas não sabia pra onde ir depois. Ainda era jovem, talvez pudesse sair pra algum lugar, já havia visitado alguns lugares da cidade. Sozinho, todo lugar é a mesma coisa, só depende do que você quer ver, ou do que você quer beber. Sexo? Talvez. Sempre fora estranho nesse aspecto. Acho que ainda não decidira do que gostava. Na verdade, não gostava desta imposição. Quando se tocou disso percebeu o quanto o mundo era realmente preconceituoso e excludente, o como as tradições e as concepções de séculos atrás permeavam e continuariam a permear por longos anos a realidade a sua volta. Hey! Ele voltou a si.
 Precisamos desse relatório pra semana que vem, o fornecedor ainda não respondeu aos e-mails? Nenhuma novidade ainda, acho que vou precisar ligar lá,e se nada funcionar, vou precisar pedir que os visitem. Ah, esses incompetentes, pagamos em adiantamento, e sempre atrasam!
Ela realmente pensou que estaria recuperada. Só mais aquele dia, e então o ar fresco da insegurança, ter de lidar com aquilo, não queria que ele sofresse, mas não havia como. Só contava com sua boa vontade pra ajudar no processo. Fizera o café, preparara torradas. Ele já estava de pé.
 Olhou, agradeceu. As vezes era meio folgado, mas não era mal no todo. Ela só não conseguia mais sentir aquela ligação, agora era indiferença. As vezes gostava da conversa, mas na maior parte do tempo só achava perda de tempo. Mas agora tudo isso não teria importância, ela já havia tomado sua decisão. Já estava arrumada, ia pro trabalho, aproveitaria o tempo no trânsito pra saber como lidar com tudo isso. Sabia que pensaria tudo com calma, mas acabaria remoendo tanto que faria da maneira que não imaginara. O trânsito estava lento. Podia observar as pessoas apressadas, pra lá e pra cá. Vidros fechados, medo de assalto. Várias motos pra lá e pra cá, não entendia do assunto, mas uma larga, parecia um quadrado, com cores negras porém muito reflexiva chamara sua atenção por alguns segundos. Só algo com que se distrair pra tentar respirar um pouco e desenvolver a linha de raciocínio sobre o assunto que realmente lhe interessava hoje. Acho que depois disso nem seria tão difícil. Conhecia muita gente, e poderia voltar a sair com a galera, relações mais variadas, conversas variadas, mais confortável. Conhecer gente nova, com certeza.
 Chegara a Empresa, o salão amplo, terceiro andar, milhares de cubículos. Havia estudado administração de empresas, mas trabalhava praticamente como supervisora, as vezes vendedora, as vezes compradora, as vezes gerente. Aprendera tudo sobre economia, era nova, mas muito astuta, no fundo amava trabalhar, estudava muito, sempre que podia. Organizara suas coisas, enquanto trabalhava não pensara tanto sobre o assunto, não tinha tempo pra isso, estava preocupada com um relatório que deveria estar terminado até o fim da semana, para ser entregue na outra, referente a uma compra que havia realizado. Dependia do feedback de setor de análise de contratos, passou lá rapidamente para dar uma apressada no andamento da coisa, sem pressão, tinha jeito pra lidar com as situações. O dia até que passara rápido. Na hora do almoço, sentara na praça em frente a empresa. O tempo estava nublado, fazia um pouco de frio, e agora ela pensava um pouco mais sobre o que faria depois. Precisava dar um jeito na sua vida. Cansou-se, talvez não quisesse se estressar tanto com as coisas. Por ali havia um café, na verdade, uma mistura de livraria com café. Nunca havia entrado, mas tinha uma fachada famosa. Quem sabe um outro dia? A hora do almoço já estava terminando. Enquanto caminhava de volta, observou estacionada a tal moto que havia lhe chamado a atenção.

Ao fim da tarde ele não sabia exatamente o que faria ainda. Não queria voltar pra casa, acho que só queria beber um pouco, ouvir uma música rápida, gastar energia. Já fazia meses que não fazia sexo. Isso o incomodava, e relutava em admitir o quão fútil era por depender tanto de algo tão simples de ser resolvido. Na verdade, enfrentava dilemas internos ainda, coisas que tentava resolver já há tempos, mas sempre na indecisão, o que lhe deixava em uma situação de crise, de insegurança, o que talvez fosse bom, tendo em vista a natureza comodista de quase todas as suas atitudes ultimamente. Último café no trabalho. O tempo nublado da hora do almoço havia passado e a noite estava limpa, as estrelas pareciam diamantes encravados num tecido de veludo, e ao sair do trabalho deu uma volta com Bucéfalo. Ainda estava de roupa social, mas não dava a mínima pra isso. Só seguia lentamente, pra lá e pra cá, olhando as ruas, pensando que talvez pudesse entrar em algum lugar pra se distrair. Pensando bem, talvez não fosse uma boa ideia encher a cara.

terça-feira, 1 de janeiro de 2013

[4]

Já eram sete da manhã. Ele dormiu pouco, é verdade, mas acabou acordando com o sol que entrava pela janela e o frio natural deste horário. Ainda usava a camisa preta, amassada, de ontem, estava usando apenas ela. Levantou-se, foi direto para o chuveiro. Esperava que a ideia tão forte e fascinante da morte na noite anterior fosse atiçar seu gosto pela vida. A  morte parecia distante agora, mas a vida continuava a mesma monotonia.
 Enquanto a água caía, passava a mão pelo rosto, no cabelo, pensando no que teria de fazer durante o dia. Ir para o trabalho, tomar café pra não desabar, andar no meio de pessoas que ele nunca conheceu nem jamais vai conhecer. Milhares de oportunidades, sucessos e fracassos, andando ao seu lado, sem nunca serem ao menos tentados. Ninguém saberia que, no dia anterior, ele fora tomado por uma real vontade de dar fim a vida. Ninguém iria notar a sua ausência nessa multidão.
 Primeiro iriam ficar espantados com a morte repentina, afinal, tudo parecia tão em ordem. Depois repetiriam consigo mesmas o quão novo ele era, e o quanto tinha pela frente, como se as pessoas mais velhas já não tivessem mais poder de descobrir e fazer coisas pela frente. Uns poucos iriam para o velório do que restasse do corpo, diriam umas palavras falsas, hipócritas, gente que nunca o conheceu de verdade. Por fim os trâmites legais seriam resolvidos, e dali duas semanas ninguém mais saberia de sua existência, a não ser como causo nas festas de final de semana, algo dramático e distante, como um filme qualquer, algo irreal.
 Acabara de tomar o banho, e já se uniformizava, vestia-se da maneira padrão, exigida na Empresa. Roupa social, simples, completa, que pagava para serem limpas e passadas com parte do salário de escritório. Já descera as escadas do apartamento, pegaria a moto e iria para o trabalho, mergulhar rotina a dentro novamente.
 Como vivia sozinho, conseguiu juntar dinheiro ao longo do tempo para comprar uma moto ao estilo café racer, era negra e larga, os guidões para baixo, característico. Dera um nome, Bucéfalo. Nunca pensou que gostaria de ter uma moto para si, gostava do aspecto, mas nunca sentira vontade de pilotá-las, não se lembrava mais o que havia ocasionado a mudança. Pois bem, seguia com Bucéfalo para a Empresa, os carros e as cabeças das pessoas ao lado. As vezes imaginava, enquanto cruzava as velhas ruas, suas marcas, de tinta, de sangue, de vidro, de álcool, que galopava numa planície onde uma guerra acabara de terminar. Corpos por todos os lugares, sonhos perdidos, sangue regando as plantas, o dia e a noite totalmente indiferentes. Mas agora já voltara à realidade, nem se quer se preocupava com o evento de ontem a noite, não se dera conta da magnitude ainda. Talvez eu precisasse de ajuda. Talvez eu devesse procurar  um amigo. Talvez eu devesse me focar mais no trabalho. Talvez eu não devesse esquentar tanto a cabeça. Talvez se eu tivesse menos tempo livre. Talvez se eu tivesse mais tempo livre. Não, isso não fazia sentido. Sua vida não era assim, e estes raciocínios serviriam apenas para esconder de si uma realidade evidente, uma vida medíocre e repetitiva, sem grandes expectativas, sem grandes derrotas, sem grandes superações. Apenas juntando dinheiro, acumulando coisas, conversando amenidades, suportando tudo isso.
 Não que não tivesse vontade de viver mais, era só que as coisas haviam convergido pra mesmice. Era só que ele nunca arriscara demais, nunca fizera nenhuma grande bobagem. Sempre jogando pelo caminho certo, sempre seguindo a cartilha. Tudo bem, tinha o seu lado alternativo, mas era uma rebeldia comedida, algo até mensurável, esperado. Ouvia o seu rock, ouvia o seu punk. Tinha suas roupas pretas, gostava de gastar a energia acumulada fazendo exercícios em casa. Mas nunca fizera nada fora da caixa. Nos relacionamentos que tivera sempre procurara se moldar, procurava se adaptar para beneficiar a outra parte, ou talvez para se beneficiar, procurar outra situação de equilíbrio - leia-se comodismo. Isto num certo sentido causou um certo atraso na formação dos seus gostos pessoais, nas ideias, por outro lado lhe abriu a mente para outras experiências, outras opiniões, novas sensações. Já pensara em se casar, já pensara que Deus existia, já pensara que talvez fosse possível ter uma convivência em que as pessoas não enjoassem de si. Já não acreditava mais nessas coisas. Seria bom acreditar, ele dizia, mas não conseguia mais, e no fundo acreditava ser melhor assim.
 Eu me pergunto, qual foi a faísca que ocasionou aquele episódio. Milhões de pessoas vivem nessas condições, sem pensar nem se quer em quem são. É complicado. Algumas vivem sem se quer poder pensar, mesmo que quisessem. Algumas se quer vivem. Mas nós ainda não presenciamos suicídios coletivos dessa magnitude, eu acho.
 Não sei se o principal motivo foi algo externo, algo dito, feito por alguém. Ou se as coisas foram acontecendo aos poucos, e a mente foi trabalhando sobre isso, até finalmente colapsar, não conseguir mais manter o mínimo de coerência, fugindo para a segurança certa. Talvez esta tenha sido a primeira tentativa de muitas, felizmente nem chegou a se concretizar enquanto ato.
 Enquanto eu divagava, ele chegou ao trabalho, tomou um grande copo de café, e se sentou no seu canto.